Espiritualidade Cristã (3): A gratidão

“Entrai pelas portas dele com gratidão” (Salmos 100:4a)

Karl Barth escreveu, em sua principal obra, a Dogmática da Igreja, que todo pecado é simplesmente ingratidão. Nisso ele ecoa Rm. 1:20ss, texto que a coloca na raiz de vários pecados. O pecado, em sua raiz, é um ato de ingratidão para com o Deus que manifesta sua bondade “sobre justos e injustos”.

Costumamos chamar gratidão ao sentimento, feito de amor e alegria, que nos toma quando somos agraciados — quando recebemos um presente. De fato, a gratidão é um tipo de amor. É assim que Jesus chama a gratidão daquele que é perdoado, e esse amor cresce à medida que o dom divino cresce (Lc. 7:41-43).

Todavia as virtudes cristãs nunca são meramente interiores. Quando são verdadeiras, sempre se externam de algum modo, e o modo como nossa gratidão se externa é o agradecimento (ou ação de graças). Uma gratidão sem agradecimento, ou com um agradecimento meramente verbal, é inteiramente questionável. A gratidão se expressa em pequenas ações. Por isso, Jesus e os apóstolos sempre iniciavam uma refeição – seja a Ceia do Senhor, seja qualquer outra – com um agradecimento. É assim que comemos para a glória de Deus.

Desde os pais da igreja, é tradição cristã iniciar a oração com adoração e agradecimento, antes de partir para qualquer pedido pessoal, ainda que espiritual. Nisso nós reconhecemos que a bondade de Deus para conosco é anterior a tudo em nós, mesmo nossa própria existência. Aliás, Jesus nos manda crer que já recebemos o que pedimos, e não há como fazer isso sem gratidão (Mc. 11:24; Fp. 4:6). A gratidão é uma postura básica para aquele que se aproxima de Deus.

Devemos ser gratos a Deus por tudo e por todos (1Ts. 5:18; 1Tm. 2:1). É natural pensar que devemos ser gratos por tudo, se entendemos que o cuidado de Deus se estende a nós em todas as situações; Deus é um Deus absconditus (Deus que se oculta, Is. 45:15), mas nunca ausente. De fato, o fundamento da gratidão é o reconhecimento de que tudo que temos vem de Deus (1Co. 4:7). A teologia da graça está inteiramente a salvo nos corações que são inteiramente gratos a Deus por tudo, em especial pela própria salvação.

Mas somos também exortados a algo muito estranho: render a Deus ações de graças por todos os homens. Sim, devemos ser gratos também por aquilo que outros receberam, mesmo que não os conhecemos. Talvez seja isso que falte à oração do fariseu na Parábola do Fariseu e do Publicano (Lc. 18:9-14). A oração inicia de maneira correta (“Ó Deus, graças te dou porque…”, v.11), mas ele usa seu agradecimento para diminuir o publicano. Não é uma gratidão genuinamente cristã, porque esquece que não apenas tudo vem de Deus, mas também tudo pertence a ele.

Se entendemos que a graça de Deus continuamente nos alcança, a gratidão deixa de flutuar conforme a nossa vida emocional; pelo contrário, é essa virtude que deve guiar nossos sentimentos. A gratidão cristã é um estilo de vida. Ela é vivida plenamente quando estamos plenamente satisfeitos com aquilo que recebemos e com aquilo que não recebemos, como se nada pertencesse a nós e como se tudo fosse nosso.

G. M. Brasilino

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