A Hipocrisia de Pedro

Rembrandt - Pedro (cortado)

“Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão” (Gálatas 5:1)

O capítulo 12 do Evangelho de Lucas inicia com uma advertência (vv. 1-3) de Jesus contra o fermento dos fariseus, a hipocrisia, seguida de uma exortação o medo (vv. 4-7). Não é difícil ver a conexão entre o medo e a hipocrisia. A pressão do mundo pode provocar medo e o medo pode levar uma pessoa a fingir, a enganar. Jesus lhes diz, porém, que tudo um dia será revelado, tudo virá à luz, e que há mais motivo para temer a Deus do que aos homens.

Essas mesmas palavras aparecem em um contexto distinto no Evangelho de Mateus (10:26-28). A situação não é mais a hipocrisia dos fariseus, mas sim a comissão dos discípulos para testemunhar da chegada do Reino. Os discípulos não deveriam temer aqueles que se opõem à pregação (v. 25); eles deveriam anunciar, trazer à luz, tudo aquilo que Jesus lhes disse, sem medo das ameaças — há mais motivo para temer a Deus do que aos homens.

Na situação dos discípulos, essas duas preocupações são duas faces da mesma moeda. Como responsáveis por testemunhar a Ressurreição de Jesus e seu ensino, os apóstolos seriam perseguidos e tentados a desistir. A hipocrisia seria uma saída fácil: vender o evangelho para fugir da perseguição. Se eles não trouxessem à luz a mensagem de Cristo através de suas vidas, Cristo um dia traria à luz essas mesmas vidas. Os hipócritas não querem ser perseguidos, mas sim ser “glorificados pelos homens” (Mt. 6:2). A radicalidade do Evangelho coloca os homens diante da alternativa entre ser perseguidos pela verdade ou glorificados pela mentira.

Foi o que ocorreu com Pedro (Cefas):

GÁLATAS 2:11-14
11 Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque se tornara repreensível.
12 Com efeito, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a apartar-se, temendo os da circuncisão.
13 E também os demais judeus dissimularam com [synypokrithēsan] ele, a ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles [autōn tē hypokrisei].
14 Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho, disse a Cefas, na presença de todos: se, sendo tu judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus [ioudaizein]?

Pedro, Paulo e todos esses cristãos judeus em Antioquia sabiam que as “obras da lei” (erga nomou) — circuncisão, leis alimentares, sábado — não justificam o homem diante de Deus, que eles seriam justificados pela fé em Jesus Cristo (vv. 15,16). Por isso, Pedro convivia bem com os cristãos gentios em Antioquia; todos compartilhavam a mesma fé, a despeito de suas origens. Em Antioquia, Pedro vivia efetivamente como gentio.

Entretanto, após uma conversa com emissários de Tiago, Pedro passou a ter um comportamento diferente: passou a fingir viver como judeu, por medo de outros judeus. Pedro não tem medo de Tiago ou dos seus enviados; ele teme “os da circuncisão” (v. 12), que são os judeus propriamente dito. Por medo dos judeus, Pedro passou a obrigar os gentios a viverem como judeus; obrigava-os a se judaizarem. Embora a ARA traduza como “viverem como judeus”, a tradução mais precisa para o verbo ioudaizō é “judaizar(-se)”, isto é, converter-se ao judaísmo. Por medo, Pedro passou a querer que os gentios mostrassem os traços exteriores da religião judaica. Pedro, com todos os outros cristãos judeus em Antioquia, se afastou daqueles que não se tornaram também judeus.

Por que esses gentios precisavam se judaizar, se Pedro sabia que isso não os justificaria? Que medo poderia levar Pedro a esse fingimento de judaísmo?

Como nas palavras de Jesus em Mateus e Lucas, o medo de Pedro é o medo da perseguição. Embora os cristãos em Antioquia pudessem estar em paz, a situação na Judéia era bastante diferente. Assim como Paulo fizera antes de sua conversão, muitos judeus radicais continuaram perseguindo os cristãos (2Co. 11:23-26; 1Te. 2:14-16). Para esses radicais, os judeus que não viviam de acordo com as “obras da lei” eram responsáveis pela atual situação de Israel. O problema, para eles, não era a conversão dos gentios ao cristianismo — essa perseguição é anterior à conversão gentílica —, mas os judeus que não viviam como judeus (At. 6:11,14). E viver como judeu incluía não comer e conviver com gentios (10:28; 11:3).

Os romanos oprimiam os judeus; os judeus radicais oprimiam os cristãos judeus; os cristãos judeus hipócritas oprimiam… os cristãos gentios. Uma crise nacional se tornou uma crise eclesiástica. Os gentios eram o bode expiatório.

A coisa era especialmente delicada em Jerusalém. Enquanto Pedro estava em Antioquia, Tiago liderava a Igreja e os anciãos (presbyteroi) nessa cidade (At. 12:17; 21:18; cf. Gl. 2:9). Na linguagem de uma época posterior, Tiago era o bispo de Jerusalém. Os cristãos judeus em Jerusalém, diferentemente daqueles que conviviam com os cristãos gentios em outros lugares, não tinham nenhum motivo específico para deixar o modo de vida de acordo com a Lei de Moisés. Não havia qualquer problema, para eles, em guardar o sábado, continuar a circuncisão, abster-se de certos alimentos e ; nas palavras de Tiago, eles eram “zelosos da lei” (At. 21:20).

Tiago era um líder cristão judeu entre cristãos judeus, fiéis à lei mosaica, e para ele não havia perigo de perseguição. Mas Paulo era persona non grata em Jerusalém, porque no restante do mundo ele ensinava “todos os judeus que estão entre os gentios a apartarem-se de Moisés, dizendo que não devem circuncidar seus filhos, nem andar segundo o costume da lei.” (21:21). Como 1Co. 9:20,21 testemunha, Paulo de fato vivia como judeu entre judeus e como gentio entre gentios. Mas quando essa informação chegou aos judeus cristãos de Jerusalém, e deles aos judeus não cristãos, Paulo foi preso, levado a Roma e, eventualmente, morto.

Atos 21 mostra claramente que Tiago não ensinava ninguém a se apartar da Lei Mosaica, mas não parece nada perturbado em que Paulo faça isso; sua preocupação é com o que os judeus iriam pensar (e fazer) sabendo disso. Essa é, parece, a mesma preocupação de Tiago na mensagem que enviou a Pedro. A estabilidade em Jerusalém era muito delicada. É claro que Pedro se preocupou com isso e, para não causar problemas aos cristãos judeus em Jerusalém, ele resolveu judaizar os cristãos gentios em Antioquia. Era tudo aparência! É claro que esse sacrifício por parte desses gentios convertidos ao cristianismo implicava em fazer outros bodes expiatórios: eles mesmos acabariam por se separar do restante da sociedade que não se convertesse a esse “judaísmo de aparência”.

Pedro tomou uma decisão pragmática, mas para Paulo isso era uma questão de princípios. A “verdade do evangelho” (Gl. 2:5,14) estava em jogo. O judaísmo fingido de Pedro levava a uma compreensão equivocada do Evangelho, e foi isso, tempos depois, o que aconteceu na Galácia. Judeus temendo a perseguição queriam que os gálatas (cristãos gentios evangelizados por Paulo) se circuncidassem, evitando, assim, a perseguição (5:12,13). Novamente entra em cena a alternativa que Jesus colocou: aceitar a perseguição pela verdade ou aceitar a glorificação pela mentira.

O problema é que, assim como Pedro em Antioquia, esses mestres judeus não podiam dizer que estavam apenas fingindo. Eles não guardavam a lei (5:13), mas o fingimento só funcionava se os gálatas pensassem que eles guardavam; ou seja, se os próprios gálatas acreditassem no fingimento. Por isso, os gálatas queriam, de fato, viver de acordo com a Lei (4:21). Isso impedia os gálatas de terem uma compreensão adequada do Evangelho, no qual “não há judeu, nem grego” (3:28), mas apenas a “nova criação” (6:15). Paulo já havia visto esse filme antes. Ele preferia ser perseguido. Preferia ser preso, para que aqueles que ele alcançou fossem livres.

G. M. Brasilino

2 comentários em “A Hipocrisia de Pedro

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