Batismo infantil, família e conversão

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“Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:26-28)

Há uns poucos anos atrás, o professor Michael Bird escreveu (leia aqui) em defesa do chamado “batismo dual” — a prática de algumas comunidades cristãs de se permitir pragmaticamente tanto o credobatismo quanto o pedobatismo. A prática do batismo dual ocorre, por exemplo, quando comunidades confessionalmente pedobatistas não exigem disciplinarmente de seus membros que levem seus filhos à fonte.

O texto toca num dos argumentos do pedobatismo, a noção de que o modelo familiar da Antigüidade levou os apóstolos naturalmente a batizar, juntamente com os convertidos, também os seus filhos. Mas Bird leva esse argumento ao extremo e pergunta: afinal, se os filhos formam uma unidade familiar com os seus pais, que necessidade haveria de batizá-los? O batismo dos pais convertidos, nesse raciocínio, já valeria para os filhos, que apenas receberiam o legado espiritual dos pais.

O espírito dessa pergunta é bem diferente daquele que havia na era apostólica, em que até batismo vicário havia, do qual o apóstolo Paulo fala, talvez com algum estranhamento (cf. 1Co. 15:29). Ainda assim, essa pergunta do professor Michael Bird é importante, porque, talvez inconscientemente, ele reflete aquilo que era a prática dos judeus na época de Jesus: o batismo (miqveh) dos prosélitos. Responder a essa pergunta nos ajuda a entender a diferença entre o batismo judaico e o batismo cristão — ou, o que é muito mais interessante, a diferença entre o pedobatismo judaico e o pedobatismo cristão.

Embora haja um batismo cristão, o batismo não é uma novidade cristã. O substantivo baptismos e o verbo baptizō são usados no Novo Testamento com respeito aos banhos de purificação da lei mosaica (Mc. 7:4; Hb. 9:10). Pois bem, quando uma pessoa de origem não-judaica se converte ao judaísmo, ela é submetida a esse banho de purificação; seus filhos também, mesmo bebês. No vídeos abaixo, dois exemplo do batismo judaico de crianças por imersão:

O detalhe importante é que, assim como na lógica do professor Michael Bird, os judeus só levam à miqveh crianças que tenham nascido de pais não-judeus (goyim, gentios). Se uma mulher se converte ao judaísmo, seus filhos podem ser batizados; mas se novos filhos nascem depois disso, eles não são batizados. A mãe já purificada não lega aos novos filhos a impureza que cujo remédio é a miqveh.

É aqui que aparece a diferença importante e interessante. Embora haja pedobatismo de ambos os lados, duas teologias distintas informam essas práticas, pois no pedobatismo cristão os filhos nascidos depois da conversão dos pais também são batizados. Ou seja, a prática judaica presume que os filhos de Israel são puros, e que são impuros os filhos de toda as outras pessoas, ao passo que a prática cristã pressupõe que todos são impuros.

Normalmente usa em apoio para o batismo infantil cristão as promessas generacionais das Escrituras, mas o tipo de argumento é bem diferente daquele que norteia a prática judaica, e a comparação é instrutiva. No pedobatismo cristão, embora se reconheça a força da promessa, cada novo filho precisa recebe-la por si (torna-se Israel), ao passo que no pedobatismo judaico cada novo nascido já é Israel por força do nascimento.

Assim, na distinção entre o pedobatismo cristão e o pedobatismo judaico opera a diferença entre os filhos carnais e os filhos da promessa delineada pelo apóstolo Paulo em Rm. 9. O próprio batismo funcionaria como o que os teólogos depois chamariam de “sinais da predestinação” (signa praedestinationis).

O mais interessante é que essa nova direção do batismo foi dada por João Batista, que rejeitou a premissa judaica de que, por serem “filhos de Abraão”, não necessitavam de batismo. Na pregação de João, todos precisam de batismo e todo o povo era de fato batizado (Lc. 3:21), e é evidente que, no chamado de João ao arrependimento, estavam incluídas as crianças, como era prática no judaísmo e como continuou sendo prática entre os mandeus (religião de seguidores de João Batista):

Assim, enquanto no batismo judaico a prerrogativa nacional tem a preferência, no batismo cristão (assim como no de João) essa prerrogativa foi destruída. De certo modo, o pedobatismo cristão encarna um equilíbrio difícil entre a prerrogativa da descendência e o chamado à conversão individual, entre o pedobatismo judaico e o credobatismo. O pedobatismo cristão coloca simbolicamente a todos “debaixo do pecado”. Embora seja um sacramento de perdão, ele comunica uma mensagem muito mais radical de necessidade geral de conversão, mesmo entre os filhos do povo eleito, mesmo entre os filhos da Igreja. É uma absolvição, mas também uma dura sentença. Por isso mesmo, o Novo Testamento conecta o batismo ao Dilúvio (1Pe. 3:20,21) e à travessia do Mar Vermelho (1Co. 10:1-4), onde coexistem a sentença e o livramento. Ante essa radicalidade, não é estranho que o apóstolo Paulo (Rm. 6:6) e, depois dele, Agostinho veriam no batismo a morte do “velho homem”, isto é, do pecado original, no qual todos morrem.

G. M. Brasilino

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