Tradição e Abdução

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“Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema.” (Gálatas 1:8)

“E tu, ó Timóteo, guarda o que te foi confiado…” (1Timóteo 6:20)

“…exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.” (Judas 3)

Os usos mais freqüentes da palavra “fé” no Novo Testamento dizem respeito à virtude pessoal da fé — o “espírito de fé” de 2Co. 4:13, algo próximo ao habitus fidei. Embora freqüentemente se realce a fidelidade da fé, que é uma das traduções possíveis para a mesma palavra pistis (cf. Rm. 3:3), essa palavra também designa o cristianismo como um todo e sua pregação em particular (Rm. 10:18; 13:11; Gl. 1:23; Ef. 4:5; etc.). Toda forma válida de pregação cristã posterior ao Novo Testamento é apenas a exposição desse depósito de fé original.

É evidente, no entanto, para qualquer pessoa que conheça algo da história do dogmas e da história da teologia cristã, que os artigos de fé se desenvolveram com o passar do tempo, adquirindo uma forma mais densa do que aquela que havia na Igreja primitiva —  seja pela necessidade de precaver o depósito da fé contra as heresias, seja pela necessidade de instruir os cristãos. Não há um só artigo de fé que não tenha progredido, mesmo que na direção apontada nas Sagradas Escrituras.

O exemplo mais comum é o dogma da Trindade. Embora o Novo Testamento use uma linguagem trinitária, referindo diversas vezes ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo (na fórmula batismal, na bênção final de 2Co. 13) e mesmo uma narrativa trinitária dos envios (missiones) do Filho e do Espírito Santo pelo Pai na obra da redenção e salvação (cf. Gl. 4:4-6; Ef. 1:3-14), é óbvio que nenhuma Escritura descreve explicitamente a Trindade como fórmulas clássicas fazem: uma essência em três pessoas (ou hipóstases). Como é possível que as coisas sejam assim e, ao mesmo tempo, isso não seja um “acréscimo” corruptor do depósito original da fé que a Igreja tem por comissão guardar?

Olhando na direção apontada por Agostinho no seu De Trinitate, uma tendência da teologia sistemática seria ver o dogma trinitário como deduzido a partir das Escrituras. Embora a palavra “dedução” seja usada de maneira bastante vaga — diz-se que fulano “deduziu” algo quando ele simplesmente “adivinhou” alguma coisa com baste em pistas —, ela originalmente tem um sentido bastante técnico: deduzir é concluir uma verdade a partir de outra verdade já conhecida. Assim, poderíamos dizer, o dogma da Trindade seria deduzido de algumas verdades conhecidas através das Escrituras: a divindade do Pai, a divindade do Filho, a divindade do Espírito Santo, o monoteísmo, etc.

No entanto, falando estritamente, esse tipo de raciocínio não envolve apenas dedução. Afinal de contas, mesmo a divindade do Espírito Santo é conhecida de maneira indireta no Novo Testamento, tanto por associação com o Pai e com o Filho quanto pelo lugar que ele ocupa na obra da salvação. Mesmo os textos em que essa divindade se poderia ver de maneira mais explícita (At. 5:3,4; 2Co. 3:17, etc.) não são tão claros quanto aqueles que tratam da divindade do Filho, e poderiam ser interpretados evasivamente.

O raciocínio que conclui no dogma trinitário também envolve o que se chama de raciocínio abdutivo ou simplesmente abdução, uma conclusão a partir de um conjunto de indícios. No raciocínio abdutivo, normalmente esses indícios permitem uma variedade de hipóteses, e não uma explicação única. Pela “lei” aristotélica da parcimônia , prefere-se aquela que for mais simples e que precisar de menos firulas explicativas, uma maior unidade entre os fenômenos ou fatos.

Um exemplo clássico de raciocínio abdutivo, reconhecido pelo próprio autor, é a teoria da evolução de Charles Darwin. Aquilo que essa teoria propõe não pode ser observado diretamente nem deduzido a partir de fatos conhecidos; antes, é uma explicação que dá sentido a um conjunto de fenômenos, fazendo com que a multiplicidade observada (espécies com semelhanças e diferenças) se converta em unidade explicada (origem comum) a partir de algum mecanismo (evolução).

Esse mesmo tipo de raciocínio ocorre na formulação do dogma trinitário. Há uma diversidade de textos bíblicos claros, e que permitem a dedução de elementos implícitos; a abdução é o raciocínio pelo qual esses vários elementos explícitos e implícitos são colocados na melhor explicação possível.

Obviamente o raciocínio abdutivo por si mesmo não confere certeza absoluta, mas apenas probabilidade máxima. Entretanto, quanto maiores forem as evidências, menor será o número de hipóteses nais quais elas cabem, desde que essas evidências sejam realmente levadas em conta. O dogma trinitário é a hipótese que sobra quanto toda as outras hipóteses imagináveis (arianismo, triteísmo, modalismo, etc.) são refutadas. Nesse sentido, a história do dogma é a história da refutação dos erros. Esse ponto também é claro no desenvolvimento da cristologia clássica calcedoniana: o nestorianismo, ou ao menos o nestorianismo como entendido pelo restante do mundo, desprezava a evidência disponível (Lc. 1:43; 1Co 2:8; 1Jo. 1:1-3; etc.).

Há outros exemplos que poderíamos falar, análogos ao uso do raciocínio abdutivo no desenvolvimento do dogma trinitário, embora não tenham sido formulados a partir de refutação de erros (os quais são, todavia, teoricamente possíveis): o casamento monogâmico, pedobatismo, o relacionamento entre o Antigo  Testamento e o Novo Testamento. Mesmo temas polêmicos como a predestinação envolve sempre raciocínio abdutivo — válido ou inválido, mais ou menos provável —, independentemente de qual posição se tome.

Nesse sentido, o uso da lógica do raciocínio abdutivo permite visualizar o que propriamente se poderia chamar de “Tradição”: uma certa forma (ordem abdutiva) observada na matéria (“fatos” brutos) da revelação expressa nas Sagradas Escrituras. Ao mesmo tempo, o reconhecimento da ordem abdutiva confere aos textos especificamente considerados uma preferência hermenêutica com respeito àquilo que mais favorece a ordem abdutiva, em um círculo hermenêutico.

Assim, se da leitura de Mt. 28:19 deduzimos que Pai, Filho e Espírito Santo têm uma mesma autoridade salvífica, fornecendo um elemento para a abdução, as conclusões dessa mesma abdução nos permitem visualizar como não é possível interpretar o “Espírito Santo” como algo diferente de uma pessoa divina, estando salvificamente ao lado do Pai e do Filho.

Isso explica, aliás, como é possível que pessoas que defendem a mesma doutrina podem divergir sobre a interpretação de textos específicos, como acontece em todas as tradições cristãs. Afinal, a doutrina seria a observação da ordem subjacente aos textos. Assim, a tradição cristã seria propriamente o ato de passar adiante essa forma abdutiva, favorecendo os leitores das próximas gerações na compreensão mais adequada dos textos especificamente considerados.

Obviamente, abdução não esgota o que é a tradição cristã, pois ela inclui não apenas o modo de se entender a revelação, mas também de vivê-la. Ademais, a abdução no processo hermenêutico não envolve apenas textos mas também todo tipo de fatos; os apóstolos pregavam o Evangelho interpretando as Sagradas Escrituras do Antigo Testamento a partir dos novos fatos e revelações trazidos por Cristo.

Mas associação entre tradição e abdução nos permite visualizar de que maneira a tradição emerge da leitura e ao mesmo tempo guia a leitura sem viciar a interpretação, na medida em que esse raciocínio abdutivo só é válido na medida em que ele não joga nada para de baixo do tapete.

G. M. Brasilino

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