O governo congregacional é bíblico?

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Hoje o costume entre evangélicos é dizer que não existe um “governo bíblico”; a Escritura teria princípios que poderiam ser usados para formular formas diferentes de governo eclesiástico. Do ponto de vista protestante isso é bastante esquisito, porque parece negar a suficiência da Escritura para a vida cristã. Só não estranharia essa opinião quem considerasse o governo eclesiástico como de menor importância para a vida cristã, uma posição que nada tem, ela mesma, de bíblica.

Resolvi escrever esse texto para dizer o que penso sobre o governo eclesiástico congregacional, criado no século XVI e seguido por vários ramos protestantes, como os congregacionais e batistas. O governo congregacional é aquele em que cada congregação é administrativamente independente de outras congregações, regida democraticamente (por voto) e liderada espiritualmente por um pastor eleito pela congregação. Ainda que as congregações em geral sejam partes de uma associação com finalidades de cooperação (“denominação”), elas podem se desassociar livremente. A rigor, um pastor herético não pode ser deposto por essas associações.

Diante de uma demonstração de que o governo congregacional não é bíblico, uma resposta contemporânea seria: é claro que não é, pois não existe um governo bíblico. Mas penso que essa postura não corresponde ao ensino das Escrituras. É óbvio que o Novo Testamento não detalha como deve funcionar o governo eclesiástico; na época em que ele foi escrito, o governo eclesiástico era liderado especialmente pelos apóstolos, e ele não precisavam explicar por escrito, para suas ovelhas, sobre como esse governo funciona. Se as ovelhas eram consideradas igrejas, é porque elas já aprenderam, de viva voz, como funcionava o governo eclesiástico, sem que mais explicação fosse necessária por escrito.

No entanto, isso não significa que não haja um modelo de governo eclesiástico subentendido nas Escrituras. Ele existe, e, embora não seja explicado detalhadamente em lugar algum, ele é indicado por toda parte de maneira mais ou menos direta, sempre que a função pastoral é mostrada em ação (como nos Atos dos Apóstolos) ou mandamento (como nas Cartas Pastorais). Existe um governo eclesiástico implícito nas Escrituras. O papel do teólogo é tornar explícito esse governo por abdução (leia aqui).

Assim, dizer que não há um modelo de governo eclesiástico bíblico é o mesmo que dizer que não há uma doutrina bíblica da Trindade, uma reação ao mesmo tempo verdadeira e inútil. Não há uma doutrina estritamente bíblica da Trindade, mas há uma doutrina da Trindade em conformidade com as Escrituras. Não há um governo eclesiástico estritamente bíblico, mas há um governo eclesiástico em conformidade com as Escrituras.

Na verdade, existe um governo eclesiástico implícito nas Escrituras, e é o governo episcopal. Deixo minha posição clara porque, embora este texto não seja uma defesa do governo episcopal, é uma crítica do governo congregacional de uma perspectiva “episcopal”.

Embora não constituam uma refutação completa, há cinco tópicos que considero importantes na compreensão do governo eclesiástico conforme exibido no Novo Testamento.

1. Igrejas locais: Existe bastante confusão sobre o conceito de “igreja local”. No governo congregacional estrito, “igreja” é, propriamente, a congregação autônoma e independente. Por isso, vários argumentos em defesa do governo congregacional dependem de que se leia “congregação” onde a Escritura diz “igreja”.

Basta consultar o uso dessa palavra no Novo Testamento para verificar a falsidade dessa suposição; a palavra “Igreja” é usada para designar algo maior que a congregação. Não se trata apenas do uso, característico de Efésios e Colossenses, de caracterizar todos os cristãos como o corpo místico de Cristo, “a Igreja” (Ef. 1:22; 3:10,21; 5:24-32; Cl. 1:18,24). Entre a congregação de cristãos — que também é chamada de igreja e que, ao menos na cristandade paulina, se reunia em casas (Rm. 16:3,5; 1Co. 11:18; 14:4-5,19,23,28; 16:19; Cl. 4:15,16; Fm. 2) — e a Igreja universal, existem as igrejas locais.

As igrejas locais do Novo Testamento não eram congregações. É um erro pensar que as Igrejas de Roma, de Corinto e da Galácia eram congregações. Elas eram regiões com várias congregações, mas que constituíam uma igreja local. As congregações eram as igrejas domésticas, enquanto os cristãos de uma cidade ou região constituíam igrejas locais. Paulo chega a empregar os dois sentidos no mesmo contexto:

Cl. 4:15,16: “Saudai os irmãos de Laodicéia, e Ninfa, e à igreja que ela hospeda em sua casa. E, uma vez lida esta epístola perante vós, providenciai por que seja também lida na igreja dos laodicenses; e a dos de Laodicéia, lede-a igualmente perante vós.”

Em outras palavras: A igreja dos laodicenses era a Igreja composta pelos cristãos da cidade de Laodicéia; mas esses cristãos estavam em igrejas menores, congregações, que se hospedavam em casas. Na linguagem que os cristãos ocidentais passaram a empregar no final da Antigüidade, as “igrejas locais” do Novo Testamento são o que se passou a chamar de dioceses. Mesmo havendo várias igrejas domésticas em Laodicéia, Paulo escreve uma só carta para ser lida por todos eles. De fato, os apóstolos exerciam autoridade defintiva sobre essas igrejas locais (1Co. 16:1), de maneira que um governo congregacional jamais poderia surgir.

2. Presbíteros e bispos: Um ponto em que tanto defensores do governo congregacional quanto do governo presbiteriano insistem é a identidade entre os “presbíteros” e “bispos” no Novo Testamento. Todos os pastores seriam teoricamente iguais, não havendo naturalmente os pastores de pastores do episcopado histórico.

De fato, há textos bíblicos em que as expressões “bispo” e “presbítero” referem-se à mesma pessoa (At. 20:17,28; Tt. 1:5-7). Mas podemos ir além, e dizer que “apóstolo”, “presbítero” e “diácono” são expressões sinônimas, já que os apóstolos usam todas essas expressões para si mesmos: Paulo chama a si mesmo, em grego, de diácono (Cl. 1:23-25) e Pedro, de presbítero (1Pe. 5:1-4). Isso ocorre porque tais palavras são geralmente usadas no Novo Testamento segundo seu sentido etimológico, e não como nomes técnicos.

O argumento, na verdade, é só uma confusão entre a relação dos nomes e a relação das coisas. A questão não é se expressões como “bispo” e “presbítero” são usadas igualmente, mas sim se os ministros do Evangelho no Novo Testamento são todos iguais ou há ministros do Evangelho exercendo supervisão interventiva (episcopado) sobre outros ministros, e não apenas sobre congregações. O uso da palavra “bispo” para designar esse ministério é uma tradução salutar, mas não é necessário ao governo episcopal.

Os próprios apóstolos são o princípio do governo episcopal, ordenando por autoridade própria recebida de Cristo (sem a necessidade de consultar a congregação) pessoas ao presbiterado nas igrejas locais (At. 14:23; Tt. 1:5), ministério que posteriormente os viri apostolici, como Timóteo e Tito, passam a exercer, com poder inclusive para disciplinar outros ministros e receber acusações contra eles (1Tm. 5:19).

Penso que qualquer cristão neutro concordaria que a existência de pastores de pastores (chamados de bispos ou não) é um bem, não um mal — abusus non tollit usum. Se fosse um mal, o apóstolos não o teriam sido. Mas se é um bem, é necessário um ótimo motivo para que ele seja evitado.

3. Sufrágio: Um dos maiores descompassos entre o governo eclesiástico do Novo Testamento e o governo congregacional é noção de voto; no governo congregacional, toma-se decisões com base nos votos da congregação. No Novo Testamento, não há exemplos do uso do voto para tomada de decisões eclesiásticas. Se uma prática tão divisiva e tendencial a partidarismos como o voto deve ser usada na Igreja, deve haver uma boa justificativa com base nos ensinamentos de Jesus e dos apóstolos, mas essa justificativa não existe.

Isso não quer dizer, é claro, que não haja textos em que o defensor do governo congregacional possa imaginar o voto, ainda que sem a palavra “voto”. Alguns textos seriam:

Mt. 18:15-17: “Se teu irmão pecar [contra ti], vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano.”

O defensor do governo congregacional vê no texto uma prescrição para disciplina eclesiástica, e imagina que o “dize-o à igreja” e “ouvir… a igreja” envolve uma votação da igreja acerca daquela pessoa, e talvez suponha até que a parte de considerar “como gentio e publicano” envolva excomunhão. Nada no texto fala de voto ou decisão por parte dos membros de uma congregação.

1Co. 5:11-13: “Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai pois dentre vós a esse iníquo.”

De todos os exemplos, esse é o mais engraçado. Afinal, o texto não apenas não diz nada sobre votação, mas também omite o fato de que quem fala é o apóstolo Paulo, que exerce autoridade sobre a Igreja de Corinto, e que tomou sozinho a decisão de punir, que deveria apenas ser executada por aquela Igreja, em pura obediência.

A situação é algo mais próxima em 2Co. 2:6:

2Co. 2:6: “basta-lhe a punição pela maioria.”

O defensor do governo congregacional poderia ver nessa “maioria” uma maioria de votos em favor de uma determinada disciplina eclesiástica. Na verdade, o texto é uma das provas do poder do governo episcopal apostólico. O apóstolo Paulo escreveu anteriormente aos coríntios com palavras duras (2:4) que levaram alguém a ser excluído pela igreja, ou seja, “pela maioria”. Foi uma iniciativa da autoridade apostólica, Paulo, e não de uma congregação independente; a congregação apenas puniu a pessoa, fazendo o que Paulo ensina a fazer em outras cartas: evitar a pessoa, ainda que tratando-a como irmão (Rm. 16:17; 2Ts. 3:6,14-15). Agora Paulo escreve que aquele que foi punido deve ser recebido de volta (2:7,8), novamente sem nenhuma decisão por parte da congregação. O voto é, novamente, imaginário.

Atos 6:3-5: “Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia.”

Creio que esse seja o único texto em que é possível que tenha havido voto, mesmo que o texto não o mencione, pois diz que o povo elegeu sete homens; embora atualmente usemos a expressão “eleger” no contexto do sufrágio democrático, o verbo grego eklegomai indica simplesmente “escolher dentre”, e sabemos perfeitamente que a eleição divina não implica em votos. Pode-se imaginar a comunidade elegendo pessoas por simples aclamação, já que não havia “candidatos” prévios.

Mas como os apóstolos deram à comunidade o papel de escolher, mesmo que não tenham usado votos, ela poderia ter usado. Mas o ponto é que eles receberam dos apóstolos a possibilidade de escolher, e os próprios apóstolos seriam os responsáveis por conferir a essas pessoas autoridade por imposição de mãos. A comunidade apenas escolhe, não dá autoridade. O texto mostra uma situação específica que só pode ser usada como exemplo em um governo episcopal.

Atos 14:20-23: “…e no dia seguinte saiu com Barnabé para Derbe. E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icónio e Antioquia, Confirmando os ânimos dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé, pois que por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus. E, havendo-lhes, por comum consentimento, eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.”

Geralmente a parte citada é somente o v. 23, mas creio que iniciar a leitura no v. 20 ajuda a entender quem seja o sujeito dos verbos. São quatro verbos nos vv. 20-22 em que Paulo e Barnabé são o sujeito; em nenhum momento a comunidade aparece como sujeito de algum verbo. A leitura natural do texto, no seu contexto, é que Paulo e Barnabé elegeram (indicaram) anciãos para cada igreja. Mas o próprio versículo torna impossível imaginar que as igrejas realizaram eleições, já que o sujeito de ambos os verbos presentes no v. 23 (eleger e encomendar) é o mesmo!

A tradução acima, ACF, ainda acrescenta a expressão “por comum consentimento”, que não consta no texto grego. Reconhecendo que Paulo e Barnabé são os sujeitos dos verbos, a ARA chega ao ponto de alterar o verbo para manter a noção de votação, traduzindo o texto como “promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros”, uma aberração ao texto grego, como se cada igreja tivesse sua própria eleição.

Em suma, todos os textos que tratam de um real envolvimento da Igreja (não da congregação, pois não temos como afirmar que em Corinto havia uma só igreja doméstica) pressupõem a autoridade apostólica e nenhum deles pressupõe decisão por voto da igreja.

4. Dom do governo: O governo congregacional confunde vocações diferentes. Entre os dons que o Espírito Santo concede está o dom de governo (Rm. 12:8; 1Co. 12:28). Pelo simples fato de que não é um dom concedido a todas as pessoas, mas somente a algumas pessoas, nem todos deveriam governar; mas o governo congregacional é aquele em que todos governam. Ao descrever a autoridade pastoral, a Escritura diz que as ovelhas devem “obedecer” e “sujeitar-se”. Não há nenhuma forma bíblica de explicar como essa autoridade não inclui as situações em que, pelo governo congregacional, deveriam ser votadas; mas se inclui, o voto é inútil.

5. Anti-natural: Esse não é exatamente um argumento bíblico, mas sobre as conseqüências daquilo que a Escritura exige. O governo congregacional é anti-natural. As formas naturais de autoridade humana (e muito mais de autoridade divina) são hierárquicas, como é o exemplo maior da família; modelos estritamente democráticos só surgem ideologicamente, e sempre de maneiras não-democráticas. Um pai pode criar uma democracia entre os filhos, mas ele o faz justamente por ter poder para isso, um poder que os filhos não tem. Ninguém pode duvidar de que o governo israelita do Antigo Testamento era hierárquico, seja o trono, seja o templo.

O governo congregacional, por ser anti-natural, é irrealista, colocando um peso muito grande sobre os pastores, que durante todo o ministério precisarão ser pastoreados nas necessidades espirituais pessoais e liderados na direção da unidade; na verdade, o governo congregacional legitima a divisão entre os cristãos. É claro que não é possível que todos os pastores estejam sob autoridade de outros pastores, dada a impossibilidade de uma hierarquia infinita, mas certamente é irreal e danoso criar um sistema em que, como regra, nenhum esteja.

G. M. Brasilino

4 comentários em “O governo congregacional é bíblico?

  1. Prezado irmão,
    Meu nome é Edson Tinoco, e estou pesquisando sobre “Governos Eclesiásticos Democráticos e a Vontade de Deus”, e achei o seu artigo, que me ajudou muito. Pretendo fazer dessa pesquisa a minha dissertação de mestrado. Quero pedir dois favores: sobre o texto de 2 Cor. 2.6, na associação que você faz entre igreja e maioria (“pela igreja, ou seja, “pela maioria”), se poderia esclarecer, pois não ficou claro para mim. Segundo, se você se baseou em citações bibliográficas e se poderia indicá-las.
    Obrigado pelo texto e pela ajuda.

    Pr. Edson Tinoco

    Curtido por 1 pessoa

    1. 2Co. 2:6 é um texto empregado, às vezes, por defensores do governo congregacional para fundamentar as votações congregacionais, já que aparece a palavra “maioria”.

      Mas, no texto, a “maioria” não é a maioria de uma votação. É a maioria da igreja aplicando a disciplina sobre aquela pessoa, seguindo a ORDEM do apóstolo (não a decisão da igreja local).

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