Sobre “aceitar Jesus”

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“Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças.” (Colossenses 2:6,7)

Eu confesso que sempre ouço a expressão “aceitar Jesus” com bastante estranhamento. Não que ela seja em si mesmo errada; suspeito que com ela se quer enfatizar a realidade de que Jesus é recebido, não algo que nós adquirimos por nós mesmos. Aceitamos aquilo que é oferecido, a “graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo” (1Pe. 1:13). Diante dessa oferta graciosa, ou aceitamos (Jo. 3:33; 1Tm. 1:15) ou rejeitamos (Lc. 10:16; Jo. 12:48; At. 13:46). Essa expressão tem também a vantagem de lembrar que a fé cristã envolve não apenas a adesão a uma mensagem, mas em primeiro lugar o compromisso com uma pessoa: Jesus.

O meu problema é que essa expressão pode ser muito mal empregada, e me parece que ela geralmente é. Embora exista em Cristo uma oferta da salvação, nunca vemos nas Escrituras os apóstolos chamarem outras pessoas a “aceitar Jesus”. Eles chamam outras pessoas para se tornarem discípulos, para se arrependerem, para se converterem, para crerem em Cristo, para serem batizados, mas nunca para “aceitar Jesus”. Essa expressão pode ser bastante doce em si mesma, mas ela não combina em nada com sabor salgado com que a conversão a Cristo é descrita no Novo Testamento.

O Novo Testamento tem um nome muito mais adequado e significativo: obediência da (gr. hypakoē pisteōs, hypakouō tē pistei):

Rm. 1:1-5: Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, o qual foi por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras, com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor, por intermédio de quem viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os gentios,

Rm. 16:25-27: Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério guardado em silêncio nos tempos eternos, e que, agora, se tornou manifesto e foi dado a conhecer por meio das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus eterno, para a obediência por fé, entre todas as nações, ao Deus único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém!

At. 6:7: Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé.

“Obediência da fé” seria a tradução mais literal dessa expressão como aparece nos dois textos da epístola aos Romanos. Como o uso em At. 6:7 evidencia, a hypakoē pisteōs emprega o que se chama de genitivo objetivo: a obediência da fé é a obediência à fé. Obedecer à fé é submeter-se à fé cristã, e por isso talvez seja melhor traduzir como “submissão à fé”; de fato, o substantivo incorpora a preposição que indica estar abaixo, sub (hypo-). Podemos ainda lê-lo como genitivo atributivo: assim, seria a submissão crente, o que dá no mesmo.

Paulo coloca a obediência à fé na narrativa do envio de Cristo: segundo o seu mistério, mas em conformidade com as Sagradas Escrituras do Antigo Testamento, Deus Pai enviou seu Filho para ser nosso Senhor, dando então aos seus representantes (os apóstolos) a graça de anunciarem seu senhorio, o Evangelho. Em todos os lugares em que o Evangelho entra, faz-se presente não simplesmente uma nova religião, uma nova teoria, uma nova espiritualidade, mas uma nova autoridade suprema, como Jesus explicita na Grande Comissão (Mt. 28:18-20). O Evangelho não é algo que se pode aceitar ou rejeitar; ele é o anúncio de algo que aconteceu e irá acontecer, queiram os ouvintes ou não. Aquele que rejeita o anúncio rejeita o senhorio de Cristo; como na parábola, Jesus os chama de “meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles” (Lc. 19:27).

Embora seja uma conseqüência necessária, “obediência da fé” não indica obediência a mandamentos, mas submissão compromissiva a um governo, ao reino de Cristo. Seguir as normas desse reino é uma conseqüência de aderir a ele e uma das exigências de se estar nele.

Por isso, os inconversos são nomeados como “os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Ts. 1:8), “desobedientes ao evangelho de Deus” (1Pe. 4:17) e “filhos da desobediência” (Ef. 2:2; 5:6; Cl. 3:6). Os judeus que não abraçaram o evangelho são chamados de “desobedientes” (At. 17:5; Rm. 11:30). Isso não quer dizer que todos os cristãos sejam perfeitamente obedientes aos mandamentos; obediência aos mandamentos não está em questão, mas sim obediência a uma boa notícia, a um anúncio redentor, a submissão crente àquilo que é dito.

Também por isso, nas Sagradas Escrituras a confissão salvífica nunca é a de que Jesus é “Salvador”, ou mesmo “Senhor e Salvador”, mas sim de que Jesus é Senhor (Rm. 10:9; 1Co. 12:3; cf. At. 2:36; Rm. 14:9). Jesus se torna nosso Salvador por ser primeiramente nosso Senhor. Isso faz toda a diferença do mundo: a nossa confissão em si mesma não tem um poder mágico. Não é pelo fato de dizermos que Jesus é nosso Salvador que ele magicamente se torna nosso Salvador. Não temos esse poder! O que ocorre é algo diferente: nós apenas nos rendemos ao nosso Senhor (de boca e de coração), que está disposto a salvar todos aqueles debaixo do seu senhorio e foram comprados com seu sangue. Diante de um rei que tem pleno direito ao seu reino, tratar a submissão dos súditos como simples “aceitação” é confundir as coisas.

Mas o que preocupa mesmo nessa expressão, “aceitar Jesus”, é que ela pode servir de base para várias incompreensões sobre o processo de conversão, especialmente quando ele não se encaixa nos moldes missionários mais dramáticos. Penso na situação de um cristão criado em família cristã. A expressão “aceitar Jesus” pode nos enganar fazendo pensar que esse cristão precisa “aceitar Jesus” um dia. Isso é decididamente falso; o que ele precisa é crer no Evangelho, e toda criança cristã deve ser criada no Evangelho (Ef. 6:4). Essa criança talvez passe por algum momento crítico e dramático de conversão. Talvez não. Para efeitos do destino eterno, isso é irrelevante. Ninguém é justificado por “aceitar Cristo”, mas pela fé em Cristo.

As coisas se tornam piores quando essa expressão é usada como linguagem do decisionismo, que confunde decisão com conversão. De fato, aquela criança criada e nutrida espiritualmente em um lugar cristão não precisa tomar nenhuma decisão por Cristo. A decisão já foi tomada pelo Espírito Santo quando disse através do apóstolo Paulo que os filhos cristãos devem ser criados na doutrina de Senhor. Ninguém é justificado por “tomar uma decisão por Cristo”, mas sim pela fé em Cristo, viva e vivida.

G. M. Brasilino

4 comentários em “Sobre “aceitar Jesus”

  1. Muito bom Professor Gyordano .. raciocínio bastante interessante e racional. Curiosamente, o que ocorreu em minha casa, não obstante à criação de meu filho na fé cristã e “dentro da igreja”, um belo dia, ele optou por fazer uma decisão pública de “aceitar Jesus” (mesmo sempre tendo sido dele…). E essa data, da decisão pública e da profissão verbal, ele e todos nós marcamos como sendo a da sua conversão. Com base no seu texto, muito bem fundamentado, meu menino já era de Jesus e não sabia!
    Um abraço

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  2. Brasilino, esse final seu me deixou em dúvidas. Porque eu fui criado por uma família cristã, ensinado no temor do Senhor, mas eu não aprendi que era um pecador e que a salvação era somente através de Cristo, e não dos meus esforços próprios.

    No dia em que eu entendi de fato a pecaminosidade humana e Cristo como Salvador e Caminho a Deus, eu me senti liberto da auto-justificação e algo diferente ocorreu em mim. Isso ocorreu por volta dos 16 anos. Eu inclusive já era batizado.

    Pra ser sincero hoje eu não sei dizer se eu já havia “aceitado” a Jesus naquela época, pois embora criado no temor do Senhor e já batizado, a doutrina fundamental do Evangelho eu desconhecia. Pra mim Jesus era Senhor e, na prática, eu o meu próprio salvador.

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    1. Romanos 10:9: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.”

      Se há essa fé de que fala o texto, há salvação. O texto requer uma fé bastante simples, e é claro que ela deve crescer com o passar do tempo, com momentos de reencontro, arrependimento e aprofundamento.

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      1. Há várias pessoas, na denominação da qual ainda faço parte, nessa mesma situação que eu vivia. Conheço crentes que têm mais de 20 anos lá, com uma vida de fato piedosa a Deus, mas que entendem a salvação como uma conquista humana, e não um presente divino que, uma vez recebido, nós desenvolvemos (Fp 2:12-13).

        Acredito que apesar de muitos confessarem publicamente essas coisas, no íntimo, no momento cara a cara com Deus em oração, eles confessam a Deus que precisam da misericórdia divina para serem salvos.

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