Ressuscitou para nossa justificação (Rm. 4:25)

Rembrandt Ressurreição de Cristo

ὃς παρεδόθη διὰ τὰ παραπτώματα ἡμῶν
καὶ ἠγέρθη διὰ τὴν δικαίωσιν ἡμῶν.
“Ele foi entregue à morte por nossos pecados
e ressuscitado para nossa justificação.”

(Romanos 4:25)

Que relação existe entre a Justificação e a Ressurreição? Se se fizer essa pergunta a um defensor da Substituição Penal e da Justiça Imputada, talvez não se obtenha nenhuma resposta satisfatória. Nessa teologia, a Ressurreição de Cristo não tem nenhum papel salvífico a desempenhar, mas somente a Cruz, por meio da qual a justiça de Cristo é atribuída (imputada) a nós, e nossos pecados atribuídos (imputados) a ele. Justificação seria apenas o projeto divino de matar alguém para que possa perdoar os “verdadeiros” culpados. Não resta nada para a Ressurreição, que assume função apologética: mostrar que realmente Jesus era o filho de Deus, e que seu sacrifício no Calvário foi aceito pelo Pai. É esse o ensino da Sagrada Escritura?

É fácil ver que esse tipo de posicionamento não faz justiça ao que se lê em Rm. 4:25. Assim como a Cruz e o perdão de pecados estão conectados, também estão a Ressurreição e a Justificação: “ressuscitado para nossa justificação”. Se não queremos simplesmente ignorar o texto, fazendo de conta que Paulo nunca o escreveu, nossa doutrina precisa incorporar essa noção revelada.

É verdade que a o texto grego utiliza a mesma preposição em ambas as sentenças (dia + acusativo), enquanto a versão citada acima (NVI), como outras (ARC, ACF, NTLH), traduzem o primeiro caso como “por”, e o segundo como “para”. A ARA busca preservar a identidade, vertendo: “entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.” Assim dito, a relação entre a Ressurreição e a Justificação é menos clara. Ainda assim, se queremos preservar o paralelismo, o “ser entregue” por causa dos nossos pecados não significa senão quer Jesus foi entregue para solucionar o problema dos nossos pecados, assim como Ressuscitou para solucionar o problema da nossa Ressurreição. Corretamente entendida, mesmo essa versão quer dizer a mesma coisa.

Aqui, Paulo antecipa a linguagem que usará em Rm. 5:12-21, especialmente o v. 18, que de várias formas compara as nossas transgressões (e a de Adão) ao ato de justiça realizado por Cristo, sua obediência “até a morte” (Fp. 2:8) pela qual alcançamos a Justificação (dikaiōsis). Não é somente em Rm. 4:25 que se pode ver um relacionamento entre a Justificação (ou Salvação) e a Ressurreição do Senhor. Essa noção está explícita ou implícita em outros textos, como:

Romanos 5:10: Se quando éramos inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte de seu Filho, quanto mais agora, tendo sido reconciliados, seremos salvos por sua vida!

Romanos 6:4: Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.

Romanos 8:33-34: Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós.

Romanos 14:9: Porque foi para isto que morreu Cristo, e ressurgiu, e tornou a viver, para ser Senhor, tanto dos mortos, como dos vivos.

1Coríntios 15:17: E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.

2Coríntios 5:15: E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.

Em Rm. 5:10, enquanto a reconciliação se dá pela morte de Jesus, a salvação se dá por sua vida (Ressurreição). Em Rm. 6:4, há uma ligação entre a Ressurreição do Senhor e a vida nova. Em Rm. 8:33-34, a Justificação aparece em paralelismo com a morte e (mais) a Ressurreição. Em Rm. 14:9, a Crucificação e Ressurreição confluem em um mesmo objetivo salvífico. Em 1Co. 15:17, por um motivo não explicado, se não há Ressurreição, não há perdão de pecados. Em. 2Co. 5:15, é dito não apenas que Jesus morreu por nós, mas também ressuscitou por nós.

Por isso mesmo, quando o apóstolo Paulo fala da fé salvífica, menciona o senhorio de Jesus e sua Ressurreição (Rm. 10:9), não a Crucificação, mesmo sendo essa essencial para a salvação, pois somos “justificados pelo seu sangue” (Rm. 5:9). Mas que significa dizer que Jesus ressuscitou por nós? Como a Ressurreição do Senhor se coloca na obra salvífica? Afinal, que relação existe entre Justificação (a declaração divina de justiça) e Ressurreição (a volta à vida do Senhor)?

Atacamos essas perguntas começando pelo óbvio. Sabemos que a fé cristã inclui a promessa de ressurreição, que ela é inerente à salvação (Rm. 8:23). Não é difícil ver que a Ressurreição de Jesus está de certo modo ligada à nossa própria (Rm. 6:5). Ele começa a coisa toda (1Co. 15:20ss; Cl. 1:18), e queremos, no fim das contas, seguir o mesmo caminho. Também parece óbvio que da Justificação resulta a nossa própria ressurreição. Uma direção a se perguntar seria: que relação existe entre a Ressurreição do Senhor e a nossa?

Penso que a melhor resposta está nos capítulos 5 a 8 da Epístola aos Romanos, lidos detalhadamente. Não por acaso, são os capítulos que aparecem logo após Rm. 4:25, o lugar óbvio para procurar a explicação.

O texto é, de certo modo, espelhado: os capítulos 7 e 8 recapitulam, sob outro ângulo, aquilo que já estava nos capítulos 5 e 6. Enquanto os capítulos 5 e 7 apresentam a natureza humana morta em Adão, os capítulos 6 e 8 a mostram revivida em Cristo pelo poder do Espírito Santo. Os capítulos 5 e 7 descrevem o que está condensado em 1Co. 15:56: “O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.” A Morte, o Pecado, a Lei. Em razão da identidade adâmica que toda a humanidade compartilha, a Morte passou a toda a humanidade (Rm. 5:12), ela reina sobre toda a humanidade (5:14,17), levando todos ao Pecado, que reina através da Morte (5:21). A própria Lei não é capaz de solucionar o problema, pois em nós habita a lei do Pecado, que nos escraviza para fazer o que é mau, em razão da nossa mortalidade (7:23-25), inclusive utilizando-se da Lei para tanto (7:9), gerando mais Morte (7:5).

Nessa situação, o ser humano é descrito como “vendido sob o pecado” (7:14); nós nos tornamos “escravos do pecado” (6:17). A conexão aqui é mais visível no texto grego: o verbo em Rm. 7:14 traduzido como “vender ” é pipraskō, pode eventualmente ser “vender como escravo” (como em Mt. 18:25); assim: “vendido para ser escravo sob autoridade do Pecado”. Em Rm. 3:9, Paulo colocara toda a humanidade “debaixo do pecado”; aqui ele revela que não apenas todos pecam. Mais do que isso: todos são escravos do pecado.

Entendida a situação humana, a conexão se torna bastante óbvia quando consideramos um dos textos mais conhecidos da Epístola, Rm. 3:24, que nos diz que somos “justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus.” . A Justificação se dá por meio da redenção, que é o preço pago para libertar um escravo; tanto o v. 25 quanto outros textos paulinos nos informam que essa redenção diz respeito ao sangue, em linguagem claramente sacrificial (Ef. 1:7; Cl. 1:14). Mas sabemos também por Paulo que a salvação final e escatológica também é redenção: aguardamos a “redenção do nosso corpo” (Rm. 8:23), do mesmo modo como o restante da Criação aguarda libertação da servidão (8:21).

Assim, a imagem paulina começa a se delinear: fomos vendidos como escravos, mas Cristo pagou o preço por essa escravidão para que sejamos livres. De quem somos escravos revela-nos os textos já aduzidos: do Pecado e da Morte. Enquanto escravos, vivendo no “corpo mortal” (7:24), estamos sujeitos à lei do Pecado. Mas nossa libertação já começou! Assim como Rm. 3:24 nos diz que a Justificação se dá através da redenção — através do pagamento do preço pelo escravo —, existe um interessante paralelismo entre ser “justificado do pecado” (Rm. 6:6-7) e “libert[o] do pecado” (6:18). Em ambos os casos, emprega-se a mesma preposição de afastamento, apo. Aqui Justificação é a declaração de libertação em relação à sentença adâmica, por meio da qual estávamos sujeitos ao reino da Morte, no qual servíamos ao Pecado e frutificávamos para a condenação. O texto merece atenção:

Romanos 6:6-7: Pois sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, e não mais sejamos escravos do pecado; pois quem morreu, foi justificado do pecado [dedikaiōtai apo tēs hamartias].

Como Paulo havia explicado poucos versículos antes (6:3-5), no Batismo nós nos unimos à morte de Cristo e somos sepultados com ele (cf. Cl. 2:12). Dada essa união espiritual a Cristo, nossa própria humanidade decaída é crucificada dele, vencida nele, e por isso deixamos de ser escravos do Pecado. O ponto chave é que a ligação entre os dois versículos é explicativa (“pois”) de maneira que ser “justificado do pecado” significa ser “liberto do pecado”, como em Rm. 6:18; do contrário, isso seria incapaz de explicar o v. 6. Quem morreu foi liberto do pecado, e nós já morremos com Cristo, portanto estamos libertos do pecado e não seremos mais escravos dele.

Esse vínculo Batismo diz respeito também à Ressurreição: “Se dessa forma fomos unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição.” (6:5). Nossa ressurreição é dependente da de Cristo, assim como nossa morte para o pecado, uma vez que estamos unidos (symphytoi) a ele e participamos daquilo que ele é. Se queremos ser libertados do poder da Morte, precisamos viver, e é justamente ele nossa vida, é sua vida que nos salva (5:10).

Uma nova imagem aparece em Rm. 8: a da adoção. Por um lado, ela se opõe à escravidão (8:15); por outro, é idêntica à redenção do nosso corpo (8:23). A oposição e a identificação confirmam o relacionamento entre libertação (Justificação) e Ressurreição, mas acrescentam um nove elemento à imagem: enquanto nossa Justificação se dá por Redenção, nossa Redenção ocorre como Adoção. Deixamos de ser escravos do Pecado tornando-nos filhos de Deus. A sentença divina de libertação, pela qual o nosso preço de escravos é declarado como pago, é ao mesmo tempo a sentença pela qual nos tornamos filhos.

A Morte é o último inimigo de Deus a ser derrotado (1Co. 15:26). É na nossa ressurreição, iniciada pela do Senhor, que ela é vencida por Deus definitivamente (1Co. 15:54-55). Desse modo, ressuscitar com Cristo é propriamente nossa redenção, nossa libertação do reino da Morte, nossa Justificação em relação à nossa situação de escravos ocasionada pela maldição adâmica e agravada por nossas próprias transgressões. Como nossa ressurreição é dependente da de Cristo, é evidente que a Ressurreição de Cristo, de certo modo, causa a nossa, nos livrando do poder da Morte, colocando-nos então em uma situação nova: se sabemos que estamos livres do poder da Morte pelo poder do Espirito Santo, podemos viver uma vida nova também pelo poder do Espírito Santo (Rm 6:4; 7:6).

COLETA DO DOMINGO DE PÁSCOA (LOC)
Ó Deus, que para a nossa redenção entregaste o teu unigênito Filho à morte de cruz, e pela tua gloriosa ressurreição nos libertaste do poder de nosso inimigo; concede que morramos diariamente para o pecado, a fim de que vivamos sempre com Ele na alegria de sua ressurreição; mediante Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

G. M. Brasilino

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