Predestinação em Sto. Agostinho

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Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,” (Efésios 1:3-5)
Indelével. A marca que Sto. Agostinho deixou na cristandade ocidental é indelével. Ele está envolvido em todos os grandes debates da Igreja antiga, e em todos eles ele deixou alguma contribuição importante. Polêmica em muitos casos, mas sempre importante, e talvez mesmo a mais importante seja também a mais polêmica, que é a teologia da graça, gestada nos conflitos do africano contra as tendências moralistas e paganizantes de Pelágio e seus seguidores. Mas antes disso, especialmente no debate contra o rigorismo donatista, a doutrina da graça de Agostinho já estava em preparação, na sua reflexão sobre os sacramentos. A doutrina da predestinação é uma conseqüência da doutrina da graça.

Uma das acusações contra a teologia predestinária de Agostinho é a de que ela seria um resquício de seu tempo no maniqueísmo, um enxerto de paganismo na pura doutrina dos pais. Isso é falso. Biograficamente, o desenvolvimento da teologia da predestinação, como testemunhada pelo próprio Agostinho, se deu em sua leitura de Cipriano — da teologia da oração de Cipriano — à luz de 1Co. 4:7. Trata-se de uma meditação relativamente tardia no percurso teológico de Agostinho, quando já havia há tempos abandonado e confrontado o maniqueísmo.
Nessa meditação acerca da eficácia da oração, uma questão levantada por ele mesmo, assim como por todos os defensores da predestinação, é a de que é totalmente sem sentido orar pela conversão de alguém, se Deus não é capaz de mudar a vontade daquele que não quer se converter; e isso vale até para nós mesmos. Essa oração pressupõe a esperança na ação divina. E a lei da oração é a lei da fé.
Demais, entendida direito, a teologia predestinária de Agostinho pressupõe uma doutrina ontológica rejeitada pelos maniqueus, a privatio boni. No maniqueísmo, a realidade se funda em dois princípios subsistentes e opostos, o Sumo Bem e o Sumo Mal. Anos antes de articular qualquer noção relativa à predestinação, a teologia agostiniana rejeita inteiramente tal possibilidade, reconhecendo-a incompatível com a metafísica cristã da Criação. Deus é ao mesmo tempo o Sumo Bem, o único Bem em si mesmo, e o único Criador. Disso se segue que todo o Mal não é tem existência própria ou autônoma, não “subsiste”, é apenas privação e ausência do bem, privatio boni. É daí que segue a predestinação como auto-doação do Sumo Bem ao ser humano, por sua própria iniciativa, não havendo nenhum outro bem ‘fora’ dEle.
Os debates acerca da predestinação e da graça não surgiram como disputas intelectuais entre acadêmicos interessados em ‘teoria’, mas como preocupações pastorais sobretudo, de monges interessados em theōria, em santidade, em compreender o papel do Batismo (especialmente o Batismo infantil) e a oração na conversão e santificação. Aqui também Agostinho colhe os frutos do conflito anterior, agora com os donatistas. Esses conflitos são parte da elevação espiritual do hiponense. A teologia de Agostinho é a espiritualidade de Agostinho, e seus escritos inspiram, inflamam e transbordam de um profundo senso de inteira e rendida dependência em relação a Deus.
Para o Agostinho maduro, a predestinação é a presciência eterna de Deus daquilo que Ele próprio fará através de sua Graça no tempo, na salvação humana, concedendo fé e perseverança àqueles que Ele elegeu, tomando uma escolha oculta ao ser humano, mas independente da fé ou mérito humanos.
O que é a Predestinação?
A Predestinação dos Santos, X, 19: “Todavia entre a graça e a predestinação há apenas esta diferença: a predestinação é a preparação para a graça, enquanto a graça é a doação efetiva da predestinação.”
O Dom da Perseverança, XIV, 35: “Esta é a predestinação dos santos e não outra coisa, ou seja, presciência de Deus e a preparação dos seus favores, com os quais alcançam a libertação todos os que são libertados.”
O Dom da Perseverança, XVII, 41: “Com efeito, no dispor suas obras futuras em sua presciência, infalível e imutável, consiste a predestinação, e não em outra coisa.”
A Predestinação não resulta da Fé, mas causa a Fé
A Predestinação dos Santos, XVII, 34: “Procuremos entender a vocação própria dos eleitos , os quais não são eleitos porque creram, mas são eleitos para que cheguem a crer.”
Liberdade da vontade
A Graça e a Liberdade, XV, 31: “A nossa vontade é sempre livre, mas não é sempre boa. Ou é livre da justiça, quando se sujeita ao pecado, e então é má, ou é livre do pecado quando serve a justiça, e nesse caso é boa. A graça de Deus, porém, é sempre boa, e faz com que tenha boa vontade quem antes a tinha má.”
A Correção da Graça, I, 2: “Consequentemente, devemos confessar que temos liberdade para fazer o mal e o bem; mas para fazer o mal, é mister libertar-se da justiça e servir ao pecado, ao passo que na prática do bem, ninguém é livre, se não é libertado por aquele que disse: Se, pois, o Filho vos libertar, sereis, realmente, livres (Jo. 8,36).”
A inclinação má da vontade
A Natureza e a Graça, XXIII, 25: “A alma morta inclina-se à prática de obras mortas até que pela graça de Cristo receba a vida.”
O pecado é iniciativa humana
A Natureza e a Graça, XXXIV, 39: “Com efeito, atribuamos nossos pecados, que ele cura, não à sua iniciativa, mas à vontade humana e ao justo castigo merecido. Confessemos que esteve em nosso poder não cometê-los, mas confessemos também que a sua cura depende mais da misericórdia do que de nossas forças.”
Do começo ao fim, a Graça é dada conforme o juízo oculto de Deus, não por méritos
O Dom da Perseverança, XIII, 33: “Todo este arrazoado demonstra que tanto para começar como para perseverar, a graça de Deus é concessão não de acordo com nossos merecimentos, mas é uma dádiva conforme à sua oculta, justa e misericordiosa vontade.”
Deus prepara e move nossa vontade com poder absoluto
A Graça e a Liberdade, XVI, 32: “Não há dúvida de que podemos guardar os mandamentos, se queremos; mas como é Deus que prepara a vontade, é preciso recorrer a Deus para termos a vontade necessária e assim, querendo, possamos cumpri-los.”
A Graça e a Liberdade, XX, 41: “O esmerado estudo da Escritura mostra que Deus não somente dirige para as boas ações e para a vida as boas vontades dos homens, que ele torna boas, embora sejam más, como também mantém sob o seu poder todas as vontades em geral. Ele as inclina como quer e quando quer, seja para prestar favores a uns, seja para infligir castigos a outros, de acordo com a sua vontade, obedecendo a desígnios que são certamente ocultos, mas sempre justos.”
A Correção da Graça, XIV, 45: “Parece ser um exemplo contrário, para só citar um entre alguns, o caso de Saul, quando Deus quis dar-lhe o reino. Ficou a critério dos israelitas submeter-se ou não a este rei, o que significava a liberdade de resistir também a Deus. Mas não aconteceu assim, pois o Senhor contou com a vontade deles ao dispor de poder absoluto sobre os corações humanos, inclinando-os ao seu bel-prazer.”
A Graça antecede a fé, a vontade, a obediência e a caridade
O Dom da Perseverança, XVI, 41: “Portanto, a graça antecede a fé; em caso contrário, se a fé antecede a graça, não há dúvida de que a vontade a precede, pois a fé não pode existir sem a vontade de crer. Mas se a graça antecede a fé, porque precede a vontade, consequentemente precede toda obediência, precede também a caridade, mediante a qual se presta a Deus uma obediência submissa e suave. E isto é obra da graça em quem é concedida.”
A Graça liberta
A Correção da Graça, II, 3: “É necessária a compreensão exata da graça por Jesus Cristo nosso Senhor. Somente ela pode libertar o homem do mal, e sem ela não pode fazer bem algum, seja em pensamento ou desejo ou amor, seja por obra.”
A Graça converte e destrói a dureza do coração
Carta 194, 4: Quem converte o homem é a misericórdia e a graça de Deus, da qual diz o salmo: Deus meu, tua misericórdia virá em meu auxílio (Sl 58,11). Com elas o ímpio justificar-se-á, ou seja, de ímpio tornar-se-á justo e começará a ter méritos, os quais o Senhor coroará quando julgar o mundo.”
A Predestinação dos Santos, VIII, 13: “Com efeito, esta graça, conferida ocultamente aos corações humanos pela divina liberalidade, não é recusada por nenhum coração por mais endurecido que seja. Pois é conferida para, primeiramente, destruir a dureza do coração. Portanto, quando o Pai é ouvido interiormente e ensina para que se venha ao Filho, retira o coração de pedra e dá um coração de carne, como prometeu pela pregação do profeta (Ez 11,19).”
A Graça faz com que se tenha fé, vontade e caridade
A Predestinação dos Santos, V, 10: “Por conseguinte, o ser capaz de ter fé, assim como o ser capaz de ter caridade, é próprio da natureza humana. Mas ter fé, assim como ter caridade, é próprio da graça nos que creem.”
O Espírito e a Letra, XXXIV, 60: “…Deus age mediante meios suasórios visíveis para nos levar a querer e a crer.”
A Graça de Cristo e o Pecado Original, XII, 13: “Ele não somente nos leva a conhecer o que devemos fazer, mas também a praticar o que conhecemos; não somente a acreditar no que devemos amar, mas também a amar o que cremos.”
A Graça e o Livre Arbítrio, XVII, 33: “Portanto, para querermos, ele age em nós; quando queremos, com vontade decidida, coopera conosco. Porém, quando não age para querermos ou não coopera quando queremos, somos incapazes de praticar as obras de piedade.”
Resistir à tentação não está no poder da liberdade humana atual
O Dom da Perseverança, VII, 13: “Na verdade, [a Oração do Senhor] mostra que a graça de não nos afastarmos de Deus é doação dele, pois revela que lhe devemos pedir. Aquele que não cai na tentação não se distancia de Deus. Não cair na tentação não está no poder das forças da liberdade, na situação atual; estivera no poder do homem antes da queda.”
Os justificados podem decair da Graça, não perseverando
A Correção da Graça, VI, 9: “Mas, em se tratando de alguém já regenerado e justificado e que recai na infidelidade voluntariamente, não poderá dizer: “Não recebi”, visto que pela sua livre vontade preferiu o mal à graça de Deus recebida.”
A obediência temporária dos que não perseveram
O Dom da Perseverança, XXII, 58: “Se alguns, porém, obedecem a Deus, mas não são predestinados ao reino e glória de Deus, submetem-se a ele temporariamente, mas não permanecerão na obediência até o fim.”
A perseverança é um dom de Deus dado aos eleitos
A Correção da Graça, VI, 10: “Nós também não negamos que a perseverança final no bem seja um excelente dom de Deus e que sua procedência seja aquele do qual está escrito: Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto, descendo do Pai das luzes (Tg 1,17).”
A Correção da Graça VII, 14: “Portanto, aqueles eleitos, como muitas vezes dissemos, que forma chamados segundo seu desígnio, foram também predestinados e conhecidos de antemão. Se algum deles se perde, é sinal de que Deus se engana; mas nenhum se perde, porque Deus não se engana. Se algum deles perece, Deus é vencido pelo pecado do homem; mas nenhum deles perece, porque Deus por nada pode ser vencido.”
Os que não perseveram não foram eleitos
A Correção da Graça, VII, 16: “Aqueles, porém, que não hão de perseverar e, assim, se afastarão da fé e da conduta cristãs, surpreendidos pelo término desta vida, não serão incluídos no número dos eleitos, não se considerando sequer o tempo em que viveram uma vida santa e piedosa.”
Deus quis que houvesse “não perseverantes” misturados aos santos
O Dom da Perseverança, VIII, 19: “Deus, porém, julgou melhor misturar alguns não perseverantes ao número de seus santos, a fim de que não possam estar seguros a quem não convém a segurança nas tentações desta vida.”
A eficácia total do dom da perseverança
A Correção da Graça, XI, 32: “A graça por Jesus Cristo nosso Senhor é concedida com tal liberalidade, a quem aprouver a Deus concedê-la, que sem ela não podemos perseverar, ainda que quisermos, mas é tão copiosa e eficaz que nos move a querer o bem.
A graça de Deus nos é concedida para bem agir e perseverar no bom caminho, impulsiona-nos não somente a poder o que queremos, mas também a querer o que podemos. Esta total eficácia faltou ao primeiro homem;”
A Correção da Graça, XII, 34: “Assim, não somente não podem perseverar sem este dom, mas com ele perseveram realmente.”
O Dom da Perseverança, I, 1: “Portanto, não se pode afirmar que alguém tenha recebido ou possuído o dom da perseverança, se não perseverou.”
O dom da perseverança não pode ser perdido
O Dom da Perseverança, VI, 10: “Porém, a perseverança até o fim, como ninguém a possui a não ser o que perseverar até o fim, muitos podem tê-la, mas ninguém pode perdê-la.”
Por que a graça liberta a um e não a outro?
A Predestinação dos Santos, VIII, 16: “A razão pela qual este é libertado de preferência àquele, tenha-se em conta que insondáveis são seus juízos e impenetráveis seus caminhos (Rm 11,33).”
Por que Deus nega o dom da perseverança a alguém?
A Correção da Graça, VIII, 17: “Se me perguntarem a razão pela qual Deus negou a perseverança aos que outorgou a caridade para viver cristãmente, respondo que ignoro.”
A Perseverança não pode ser presumida
O Dom da Perseverança., XXII, 62: “…pois ninguém pode estar certo da vida eterna, que o Deus não mentiroso prometeu antes de todos os tempos aos filhos da promessa…”
Todo mérito resulta da Graça
O Dom da Perseverança, II, 4: “O primeiro refere-se à graça de Deus, a qual não nos é outorgada de acordo com nossos merecimentos, pois todos os méritos dos santos são dons de Deus e são conferidos por sua graça.”
O Juízo Final, segundo os méritos, coroa a graça divina (graça sobre graça)
Carta 195, 1: “E os justos receberão o prêmio em conformidade aos merecimentos da própria vontade, mas a própria vontade foi dom da graça de Deus.”
A Graça e a Liberdade, VI, 15: “Portanto, se os teus méritos são dons de Deus, ele não coroa os méritos como teus, mas como dons que são dele.”
A Graça e a Liberdade, VIII, 20: “Assim, caríssimos, se a nossa vida reta nada mais é que a graça de Deus, a vida eterna, recompensa da vida reta, é, sem dúvida, graça de Deus, a qual é outorgada gratuitamente, porque é dada gratuitamente a quem é outorgada. Somente esta a quem se dá, é chamada graça; a vida eterna, outorgada a quem viveu na graça, como é prêmio, é graça sobre graça, a modo de recompensa pela prática da justiça.”
A Graça e a Liberdade, IX, 21: “Podendo dizer, e o diria acertadamente: o salário da justiça é a vida eterna, preferiu dizer: A graça de Deus é a vida eterna, a fim de que entendêssemos que a  concessão da vida eterna por Deus não é por nossos méritos, mas pela sua misericórdia.”
A Correção da Graça, XIII, 41: “E este o sentido do que se lê no evangelho: Graça sobre graça (Jo 1,16), ou seja, graça alcançada pelos méritos alcançados pela graça.”
G. M. Brasilino

14 comentários em “Predestinação em Sto. Agostinho

      1. E “segundo” a bíblia? Nós somos predestinados ou esse livre arbítrio fala mais alto na minha escolha?

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      2. E “segundo” a bíblia? Nós somos predestinados ou esse livre arbítrio fala mais alto na minha escolha?

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  1. Gyordano é comum ouvir dizer que Deus/Espírito Santo é educado não faz nada que você não quer ou permite, isso é correto ou bíblico? Porque no caso de Jonas ele resistiu, ele não queria fazer, ou é outra coisa esse exemplo?

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  2. Obrigado Gyordano pelas respostas as minhas dúvidas que Deus abençoe sua vida sempre e muito mais. Quinta-feira em um programa da rádio de perguntas cristãs de muita repercussão uma pessoa perguntou que em apocalipse 22 nós céus veremos 2 tronos o de Deus e de Jesus. O radialista(pastor famoso) disse que sim, porque não entendemos agora mas quando formos aos céus entenderemos. Isso procede no seu conhecimento?

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  3. Meu irmão, agradeço pelo excelente texto. Muito proveitoso. Minha questão é: em alguns momentos, parece que Agostinho inclina-se ao sinergismo e parece um Arminiano… defende o livre arbítrio na salvação, a livre vontade e a presciência mas em alguns textos, como os que você citou, ele mostra-se favorável ao monergismo e ao calvinismo. O que realmente acontece, O conceito de livre arbítrio de Agostinho é o mesmo condenado por Calvino ou o conceito de livre arbítrio de Agostinho está relacionado à uma liberdade limitada, que é aceitável ao calvinismo? Grato desde já.

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