A Ascensão do Amor: a fé das crianças e a oração dos animais

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Então, ouvi que toda criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo: Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos. Apocalipse 5:13

O que significam tantos trechos das Escrituras Sagradas que falam da adoração que as criaturas todas, não só anjos e homens, prestam ao Criador?  O Salmo 148 foi composto como um convite a essa adoração universal ao Criador, da qual os astros e as menores criaturas terrenas participam, e diversos outros textos incorporam o mesmo espírito. O Cântico das Criaturas, de São Francisco, está em nobre companhia.

Talvez surpreenda que essa adoração das criaturas ao Criador seja expressa também em analogia à oração e à súplica. Pois se é verdade que o Criador alimenta as aves do céu e veste a erva do campo — como Cristo nos ensina no Sermão da Montanha, ecoando o Antigo Testamento , se ele não é apenas Criador mas também o Sustentador de tudo, é igualmente verdade que toda a criação de certo modo espera receber dele o sustento. As duas verdades aparecem em conjunto no Salmo 145:

15 “Em ti esperam os olhos de todos,
e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento.”

Mesmo os pintinhos “gritam a Deus” (Jó 38:41) e os leõezinhos “buscam de Deus o sustento” (Sl. 104:21). Nessas imagens poéticas, mesmo o grito dos animais é uma oração a Deus, ainda que desesperada; fome é clamor, e não só dos homens. A força poética desses textos nos Salmos e nos Profetas nos adverte contra qualquer leitura literal mais grosseira, dado que as demais criaturas não louvam ao Criador do mesmo modo que o ser humano, mas também não podem ser desprezados como se nada dissessem. Pois toda a criação, e não só o ser humano, foi feita para Deus (Rm. 11:36; 1Co. 8:6; Cl. 1:16). Tudo existe para ele, que não é só o Alfa, o Primeiro, o Princípio, mas também o Ômega, o Último, o Fim, a finalidade transcendente para a qual tudo se dirige. Não é à toa que o Salmo 150 convoca tudo o que tem fôlego a louvar o Senhor!

As conseqüências são relevantes: o culto que os animais prestam a Deus, por sua própria existência, não é um culto através do homem. Se, por um lado, é verdade que Deus deu ao homem a terra (Sl. 115:16) e lhe ordenou dominar sobre todos os animais, é também verdade que todos os animais ainda são do Senhor e para ele, para o adorarem, mesmo quando não prestam ao homem algum serviço específico. Esse culto a Deus não depende estritamente do serviço ao homem, embora tenha nele o seu clímax sacrificial. Isso se expressa em parte no modo como, na lei mosaica, certos animais criados por Deus são proibidos para o consumo humano, embora alguém ainda possa considerar que o abutre presta ainda algum serviço ao homem. (Uma só bactéria encontrada em algum planeta distante talvez já comprovasse essa tese definitivamente.) Assim, o homem não tem poder irrestrito e irresponsável sobre os animais, porque eles não lhe pertencem inteiramente.

O homem, como pináculo da criação, rende a Deus o ápice de adoração, e de maneira única na figura de Cristo, o Deus-homem. Assim como Deus nos céus rege os anjos, assim também o homem, espelho finito e imagem da ordem divina, rege na terra os animais. Se até os animais cultuam a Deus, é certo que também as crianças o fazem, e por isso a Escritura nos ensina sobre a fé dos pequeninos.

Salmo 22:10: “A ti me entreguei desde o meu nascimento;
desde o ventre de minha mãe, tu és meu Deus.”

Salmo 71:6: “Em ti me tenho apoiado desde o meu nascimento;
do ventre materno tu me tiraste,
tu és motivo para os meus louvores constantemente.”

Assim Cristo nos fala dos pequeninos que creem nele (Mt. 18:6), e nos ensina que a verdadeira conversão é tornar-se pequeno e humilde como uma criança (Mt. 18:3-4). Os pequeninos têm até mesmo anjos que os protegem e por eles intercedem a Deus (Mt. 18:10), não sendo da vontade do Pai que nenhuma delas pereça (Mt. 18:14).

Nas exposições teológicas escolásticas em torno do batismo de crianças, essa dimensão se perdeu. Mesmo não sendo requisito para a validade do batismo, a fé viva influencia a recepção frutífera da graça batismal (Cl. 2:12) —, mas frequentemente os escolásticos falam da fé dos padrinhos ou da fé da Igreja como substitutas da fé da criança. De fato, há nisso uma verdade importante: existe um papel vicário de cuidado mútuo na comunhão da família da fé, de maneira que um membro supre o que falta ao outro. Mas é fundamental ressaltar também a fé das crianças, um dom da graça divina; elas são o modelo da fé. Só os pequeninos entrarão no reino dos céus. As crianças não são adultos incompletos. Os adultos são crianças perdidas.

As crianças são criaturas admiráveis e surpreendentes, e só um tolo hoje em dia poderia acreditar que elas nascem como tabulae rasae. Ao contrário, nascem não apenas com reflexos inatos, mas com desejos e amores inatos, e não é difícil ver nelas desde já uma semente de amor por todo o bem que ela recebe, assim como o correlato temor pelo mal que sofre. É certo que essa semente é ainda confusa quanto à natureza do seu objeto — ela não deve saber, de princípio, distinguir bem seus pais. Mas pode-se enxergar nessa raiz de amor pelo bem, desde já, uma forma confusa do que se tornará, pela graça, o amor a Deus. Se a fome dos animais é uma oração a Deus, quanto mais a das crianças.

De todo modo, essa fé que temos, e que as crianças têm, é um momento central da adoração que toda a criação — que inclui os animais — presta a Deus. Os animais louvam a Deus, mas da boca dos pequeninos Deus tira o perfeito louvor (Sl. 8:2; cf. Mt. 21:16). Por isso também a verdadeira conversão é a dos pequeninos, à qual todos devem imitar (Mt. 19:14).

Na doxologia de Ap. 5:13, toda a criação se reúne num ato sublime e glorioso de culto e entrega a Deus. Mas essa mesma criação também é capaz de um tom muito mais triste, de um gemido de dor e de esperança (Rm. 8:20-23), como muitas das nossas melhor orações. Não é um suspiro solitário, mas um coro universal: na sua expectativa ansiosa e intensa (apokaradokia, 8:19), na sua esperança de redenção, a criação “geme juntamente” (sustenazei). Nós também gememos (8:23) pelo momento em que seremos revestidos pela imortalidade (2Co. 5:2-4), com a diferença de que nós temos já em nós o princípio dessa esperança gloriosa. Assim como nós, os redimidos, toda a criação tem uma esperança escatológica, apocalíptica. Ela também é capaz de dizer maranata. Também ela vive para Deus e aguarda Deus, o Ômega.

Como a criação está decaída por nossa culpa, ela aguarda nossa redenção, para que também ela seja redimida. Pois a nova criação não é um abandono e rejeição da primeira, mas sua realização mais plena, sua libertação, redeemed from fire by fire. Pela redenção do homem, a criação descobre então a paz universal, que não é apenas a paz entre os homens (Is. 2:4), mas também entre os animais, pois “O lobo habitará com o cordeiro” (Is. 11:6; 65:25). O homem não precisará se alimentar dos animais, certamente não precisará mais do seu serviço, mas eles ainda terão um culto a prestar a Deus.

Mas isso é compatível com a vida eterna como a entendemos?

Eu admito que a linguagem com que as Escrituras Sagradas descrevem a vida eterna (e mesmo a criação) é suficientemente antrópica — ali não haverá mais noite nem luz do sol porque Deus iluminará os homens (Ap. 22:5), o que parece indicar que a luz só existe por causa do homem —, e que o mesmo que é dito sobre o culto dos animais a Deus pode ser dito em relação aos astros (como no Salmo 148), sem que isso implique que esses continuarão prestando um culto a Deus quando o homem não precisar mais deles. Minha impressão, contudo, é de que esse tipo de descrição da vida eterna, empregando a alegoria, tão comum na literatura apocalíptica, trata muito mais da comunhão entre Deus e o homem que de uma nova astronomia. Ainda assim, eles não dizem nada claramente sobre os animais.

Tradicionalmente, a teologia ocidental fala da vida eterna em termos da visão beatífica: os limpos de coração verão a Deus (Mt. 5:8), nós o veremos como ele é (1Jo. 3:2), contemplaremos a sua face (Ap. 22:4). “Pelo Espírito Santo uma visão espiritual de Deus é dada neste mundo, então é pelo mesmo Espírito Santo uma visão beatífica é dada por Deus no céu.” (Jonathan Edwards). O apóstolo Paulo coloca a visão beatífica nestes termos: “veremos face a face… conhecerei como também sou conhecido” (1Co. 13:12).

Inspirados em parte nesses textos e em parte na tradição médio e neoplatônica, diversos teólogos cristãos, especialmente os ocidentais, falaram da vida eterna como a contemplação intelectual eterna da Essência Divina Inefável (cf. Jo. 17:3). Essa visão seria, na realidade, um sacramento do intelecto. A raiz dessa noção é a doutrina intelectualista de que, sendo o fim último do homem alcançar o Bem Supremo e sendo a parte mais elevada do homem o seu intelecto, a comunhão entre o Bem Supremo (como Verdade Suprema) e o intelecto humano seria o destino final e a realização última dessa criatura. Há toda uma tradição, contudo, que vê a realização última do homem não na ascensão do intelecto apenas, mas talvez principalmente na ascensão do amor.

Ora, se a eternidade consiste principalmente na visão beatífica, e a visão beatífica é essa ascensão do intelecto a Deus, não parece haver nenhum sentido em colocar os animais na eternidade, especialmente se o serviço aos homens, então desnecessário, for todo o papel dos animais no plano divino. É claro que a existência dos animais nos novos céus e nova terra não depende de serem capazes da visão beatífica. Por outro lado, como os animais, embora incapazes do que será a visão beatífica para nós, são capazes neste mundo de uma afetividade surpreendente, eu não me surpreenderia se para eles o Criador providenciasse uma ascensão eterna do amor.

Mas será que finalmente veremos dinossauros?

Rev. Gyordano M. Brasilino

 

 

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