Ai de vós, os ricos!

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As palavras de Cristo nos parecem, às vezes, escandalosas. Como pode Jesus dizer “ai de vós, os ricos” (Lc 6:24)? Mas e se for um rico honesto? E se for alguém que trata bem os seus empregados? E se for um homem de fé? E se…? Não obstante, foi o que Cristo disse: ai de vós, os ricos, já tendes a vossa consolação. A felicidade de vocês já veio e é temporária.

Pior, Cristo disse que é mais fácil passar um camelo no fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino. Na nossa ânsia de “salvar” as palavras de Jesus, de torná-las mais aceitáveis, inventamos mil agulhas e mil camelos possíveis, todos criações da fantasia humana sem qualquer fundamento, quando Cristo, na realidade, nos fala de algo realmente impossível (Mt 10:23-26).

O desejo de Cristo, quanto às riquezas, é muito claro: ele quer que sejam dadas aos pobres para que, com isso, não sejam acumulados tesouros na terra, e sim no céu (Mt 6:19-21). Se nosso tesouro está no céu, nosso coração está no céu; se nosso tesouro está na terra, nosso coração está na terra. Aquilo que valorizamos diz muito sobre o nosso destino. O próprio Cristo fez-se pobre para nos enriquecer, e com isso nos deu o exemplo do que devemos fazer, abrindo nossas mãos. Certamente ele promete cuidar daqueles que são generosos.

Para Cristo, “os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições” são como espinhos que sufocam aquele que poderia frutificar (Mc 4:19). Fica infrutífero porque está cercado por aquilo que o prende, pelos deleites desta vida, por aquilo que o mundo oferta. Poucas coisas são tão mundanas quanto essa acomodação ao espírito do mundo, que nos faz amar os nossos recursos mais do que ao nosso próximo. É nesse espírito mundano, frequentemente motivados por ideologias ateias, que ignoramos as palavras do Senhor acerca da riqueza. Como alguém disse, o bolso é a última parte que se converte.

Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé (Tg 2:5). Ele escolheu as coisas que não são para confundir as que são, por isso “não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados” (1Co 1:26). Quanto aos ricos deste mundo, devem herdar a verdadeira vida doando seus bens, sendo misericordiosos e compassivos, sacrificando suas riquezas (1Tm 6:17-19). Uma grande ameaça pesa sobre aquele que ama as riquezas deste mundo mas não é rico para com Deus.

Devemos tomar o cuidado com o tratamento das riquezas como um sinal da bênção divina. O livro de Provérbios está cheio de indicações de como os sábios, os trabalhadores e os justos prosperarão. E, no entanto, também os ricos aumentam suas riquezas nas Escrituras, sem dores e sem preocupação: “Eis que estes são ímpios, e prosperam no mundo; aumentam em riquezas.” (Sl 73:12). Não podemos negar que as riquezas podem ser, sim, uma das maneiras pelas quais Deus nos abençoa, mas com que propósito? O que a Escritura nos ensina é distribuir aos pobres para, com isso, ter uma justiça eterna (Sl 112:9).

Eu não digo aqui nada contra profissões muito rentáveis, como a de grandes empresários, que naturalmente terão grandes remunerações. O que está em jogo não é a recepção em si das riquezas, mas duas outras coisas: o propósito para o qual nós as desejamos (cobiça?) e o que fazemos depois que as recebemos (acumulamos?). O amor ao dinheiro é raiz de todos os males, e os que querem ser ricos caem em muitas tentações (1Tm 6:9-10). O mero acúmulo, sem uma preocupação com tantas pessoas necessitadas e com tanto bem que pode ser feito aos nossos semelhantes, é um mal, assim como é um mal desejar esse acúmulo.

Penso que dois cuidados são necessários. Primeiro, não devemos ter desprezo para com os ricos, nem invejá-los. Não se resolve um pecado com outro, e a intenção cristã é sempre a reconciliação, o amor mútuo, não o conflito. Frequentemente a crítica à riqueza, como vista eventualmente no cenário político, é apenas um desejo de tomá-la, como Judas quis. Segundo, essa concepção sobre as riquezas não pode se confundir com um pensamento imaterialista, uma espiritualidade pura que desconhece o corpo e as necessidades desta vida.

Devemos estar satisfeitos com o que o Senhor nos concedeu, na simplicidade do que ele nos deu, como na oração: “não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário” (Pv 30:8). Aprendemos na Escritura a estarmos satisfeitos tendo o que comer e com o que nos vestirmos. O espírito mundano nos impede de fazer essa mesma oração.

Rev. Gyordano M. Brasilino

3 comentários em “Ai de vós, os ricos!

  1. Reverendo, boa noite. O senhor provavelmente já deve ter ouvido esta pergunta diversas vezes, mas como sou novo no blog (eu já o considero excelente), não pude deixar de indagar. Já que o senhor acredita em sucessão apostólica, presença real na eucaristia, regeneração batismal e todas essas verdades impopulares nos meios reformados e evangélicos do Brasil, em qual momento o senhor decidiu pela Igreja Anglicana em vez da Igreja de Roma? Se a doutrina que, ao seu ver, não é bíblica for a primazia papal, por que não a Ortodoxia Oriental? E se me permite uma última pergunta, na sua visão o corpo de Cristo, a Igreja, subsiste em todas essas igrejas que mantém ou alegam manter a sucessão apostólica (Anglicana, Católica, Ortodoxa), nessas igrejas e naquelas que não mantém essa fé (e portanto as reformadas e evangélicas), ou somente em uma das igrejas visíveis, isto é, na Igreja Anglicana?
    Espero não ter sido confuso. Paz de Cristo.

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    1. Olá, Israel.

      Eu posso dizer que sou anglicano por dois motivos principais: 1. é a única comunidade em que eu poderia viver a fé cristã como eu a vejo; 2. foi a comunidade que me acolheu.

      A primazia petrina é correta, mas não creio na infalibilidade papal, então não poderia ser católico romano de consciência. (Há outros motivos, mas menciono o tema que você colocou.)

      Quanto à Igreja Ortodoxa, também não posso dizer que afirmo os seus dogmas. Professo o filioque (mesmo que numa interpretação ecumênica), por exemplo. Além disso, creio que os latinos têm uma teologia da graça melhor que os gregos. Alguém tão afeito a Sto. Agostinho, como eu, não teria lugar na Igreja Ortodoxa.

      Quanto à última pergunta, a Igreja Católica é composta de todos os cristãos batizados, e manifesta sua plenitude nos sinais indicados por você (sucessão apostólica, presença real etc.), mas não está totalmente ausente onde faltam essas coisas. Ubi Spiritus, ibi Ecclesia.

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  2. Paz! Fiquei admirado com sua abordagem, eu diria não-apologética, de temas fronteiriços . Entrei aqui procurando artigos sobre predestinação em Santo Agostinho. Deus o conserve na busca da Verdade!

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