Não discernindo o Corpo do Senhor

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“Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação.” (1 Coríntios 11:29)

Uma das mensagens mais presentes no Antigo Testamento é a de que a presença de Deus e a maldade humana não podem conviver. Deus escolheu lugares para neles fazer habitar sua santidade. A terra de Israel é santa. A capital de Israel, Jerusalém, é santa. O Templo em Jerusalém é santo. Por conta disso, Deus não toleraria a prática do pecado nesses lugares. A imoralidade (Lv. 18:24-30), homicídio (Nm. 35:33,34), idolatria (Jr. 16:18) ou pecado em geral (Is. 24:5) profanariam a terra que Deus quis que fosse santa.

A santidade desses locais era tão importante que eles serviam de refúgio e asilo para os perseguidos injustamente. Aquele que estivesse no altar de Deus estaria protegido da falsa acusação de homicídio (Êx. 21:12-14). Mais conhecidas são as histórias de Adonias (1Rs. 1:50) e Joabe (1Rs. 2:28), inimigos políticos de Salomão, que buscam no altar refúgio. Isso porque “o altar será santíssimo, e tudo o que nele tocar será santo.” (Êx. 29:37). O derramamento de sangue inocente não seria tolerado diante da santidade de Deus.

Por vezes, porém o povo de Israel se fiou nessa “santidade local” como em um amuleto. Achavam que Deus os protegeria por habitarem em terra santa, por habitarem onde estava a presença de Deus, o miškān, o miqdāš.

Jeremias 7:3,4
Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Corrijam a sua conduta e as suas ações, eu os farei habitar neste lugar. Não confiem em palavras enganosas: “Este é o templo do Senhor, o templo do Senhor, o templo do Senhor! “

Aqui se mostra da grande narrativa do Antigo Testamento, a narrativa da terra. Os redimidos são conduzidos à terra (Êxodo), enquanto que aqueles que traem a sua aliança são expulsos da terra (Exílio). Essa narrativa está incluída em uma narrativa muito maior e inversa, que vê no Éden o grande Exílio da humanidade, expulsa do “monte santo” (Ez. 28:14) de Deus, mas que aguarda e vê no Messias o novo e grande Êxodo rumo à Cidade Celestial. Só os santos podem habitar a terra santa.

Essa narrativa está nas entrelinhas de todo o Novo Testamento. A resposta do Apóstolo Paulo à crise coríntia e sua convivência com os costumes pagãos é nos termos dessa narrativa. Eles não poderiam presumir que, por possuírem o Batismo e a Mesa do Senhor (tratados como amuletos), estariam livres da condenação, pois o mesmo aconteceu com Israel em pleno Êxodo (1Co. 10:1-6); por isso, deveriam viver livres da idolatria, não podendo participar do sacrifício dos demônios e do sacrifício do Senhor ao mesmo tempo (10:7-33). Assim como no Antigo Testamento constantemente a hipocrisia religiosa estava ligada à opressão do pobre e do necessitado (Amós 4), assim aqui ela está ligada à consciência do fraco que é oprimida pela falta de amor do forte.

O mesmo acontece quando o apóstolo Paulo, pouco depois, repreende os coríntios por seu divisionismo (hairesis; 1Co. 11:19) diante dos “que nada têm” (11:22), pois não celebravam a Ceia do Senhor como um só corpo. Os coríntios transplantavam os valores pagãos para a nova sociedade cuja identidade única deveria ser Cristo (Gl. 3:28). Essa é sua hairesis, sua heresia. A sentença é cabal: quem não discerne o Corpo do Senhor, come para sua própria condenação. Discernir (diakrinō) aqui significa separar, distingüir, tratar como especial; o mesmo em Mt. 16:3 (perceber que se trata de um tempo diferente), ou 1Co. 4:7 (o que torna uma pessoa diferente de outra). O pecado coríntio foi não tratar o Corpo do Senhor como algo diferente.

O que havia de errado? Eles não compreendiam que estavam pisando em terra santa. Por comerem do mesmo pão, todos formam um só pão; por comerem do mesmo corpo, todos formam um só corpo (1Co. 10:17). A comunhão à mesa é participação na mesma vida divina, o que torna qualquer divisão à mesa intolerável (Gl. 2:12-14). Só há uma igreja, e portanto só há uma mesa.

1 Coríntios 11:33,34
Portanto, meus irmãos, quando vocês se reunirem para comer, esperem uns pelos outros. Se alguém estiver com fome, coma em casa, para que, quando vocês se reunirem, isso não resulte em condenação. Quanto ao mais, quando eu for lhes darei instruções.

Quem não discerne o Corpo, condena-se. Portanto espere o irmão, para não se condenar. Nas belas palavras de Agostinho, “Torna-te o que vês, e recebe o que tu és” (Sermão 272). No pão e no irmão. Quem mata o irmão com suas atitudes, matou ao Senhor, e celebra a Mesa do Senhor não como aqueles que choram aos pés da cruz, mas como aqueles que entregam o Senhor aos seus algozes. Porque a cruz é terra santa.

G. M. Brasilino

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