Amor Impassível

Mikhail_Nesterov_003[1]

“Confiai no Senhor perpetuamente;
porque o Senhor Deus é uma rocha eterna.”
(Isaías 26:4)

Deus não muda. Por toda eternidade, desde sempre e para sempre, Deus é o mesmo. Nada há que o possa mover em qualquer direção. Não obstante, quando olhamos para o Gólgota, não vemos essa impassibilidade; vemos o Deus Crucificado que, entre o sangue e o vinagre, sofre injustamente nas mãos dos que o laceravam. Seria isso mesmo possível?

Se Deus ama, como pode ser impassível? Não é parte do amor justamente o ser levado por emoções, paixões, sentimentos? O amor é vivenciado como aventura, como mudança, como movimento. Foi assim que Jesus, que é a suma revelação de Deus, a “expressão exata do seu ser” (Hb. 1:3), se mostrou a nós: alegre, irritado, furioso, compassivo. Como Deus pode ter compaixão de nós, se nele não há paixão? Como pode sentir o que sentimentos se não sente como sentimos?

A heresia nestoriana viu aí realmente uma contradição, e sua solução foi separar dois Cristos: um logos impassível e eterno, e o Jesus de Nazaré sofredor, filho de Maria. A teologia do processo, em nosso tempo, responde a essa questão cortando o Nó górdio: Deus não é impassível, dizem os teólogos do processo. A noção de impassibilidade seria uma helenização — e, portanto, uma corrupção — do Evangelho original. Historicamente isso é falso, mas a a impassibilidade pode ser defendida teologicamente?

O que, afinal, é impassibilidade? O que significa dizer que Deus “não sofre” ou “não é movido”? Existem várias imagens de impassibilidade que são, de fato, incompatíveis com a noção cristã de Deus, e a falta de paciência ou de sutileza por parte dos teólogos do processo os leva a jogar fora qualquer forma de impassibilidade.

Uma impassibilidade eleática, aristotélica ou averroísta é inaceitável. A escolástica fundada na física e na metafísica de Aristóteles atribuiu a Deus o título de Primeiro Motor — aquele que move a tudo e não é movido por nada. Essa física opera sob a distinção entre ato (energeia) e potência (dynamis): na escala de perfeição dos entes, mais perfeitos são aqueles em que, na mistura de ato e potência, o ato se sobressai; toda a potência está atualizada. Nessa mesma escala, então, Deus seria o Ato Puro — não há nele qualquer coisa que possa se “realizar” ou “mudar”, e, portanto, “melhorar”. E por isso Deus seria a noēsis noeseōs — o pensamento do pensamento, a intelecção da intelecção, a eterna contemplação de si mesmo, fechado em si mesmo.

A teologia aristotélica concebe Deus não como inamovível simplesmente, mas como imóvel. Se Deus não se move, se está na eterna contemplação de si mesmo, como pode mover o universo? Kinei dē hōs erōmenon — “ele, na verdade, move como o que é amado” (Metafísica, XII, 1072b). Deus, nessa teologia, seria o atrator universal, puxando para si todas as coisas, não por sua própria ação, mas como fim a que todas as coisas tendem. O Deus aristotélico não é o Criador do universo. Na tipologia de Yehezkel Kaufmann (politeísmo/monoteísmo), a teologia de Aristóteles é essencialmente pagã: Deus não é a fonte e origem de todas as coisas, mas apenas uma perfeição coexistente com elas e que lhes confere uma certa ordem.

A própria noção de impassibilidade não veio de Aristóteles — muito antes do engajamento cristão com Aristóteles, mesmo antes da escola de Antioquia, na patrística vê-se a impassibilidade por toda a parte. Ao se apropriarem dessa linguagem, os teólogos medievais obviamente procuraram extirpar dela tudo aquilo que era incompatível com o cristianismo, especialmente esse seu caráter de cadáver ontológico. Deus é o criador do universo e seu sustentador, assim como seu consumador. Deus não atrai passivamente o universo para si, antes ele imprime no universo o seu próprio movimento. Deus age e Deus ama. Deus encarna.

Mas esse Aristóteles cristão, “purificado”, só é possível porque na própria teologia aristotélica há uma contradição, ou ao menos uma tensão. Chocam-se o Ato Puro, que os teólogos quiseram afirmar, e a imobilidade divina, negada por toda a Escritura. Afinal, que significava dizer que Deus é pura energeia? Não que Deus está parado, sempre resumido em si mesmo, mas que ele é perfeitamente efusivo e efusivamente perfeito. Não que Deus age ou intervem ocasionalmente, mas que Deus está sempre e em todo o tempo agindo. Deus não pode ser movido, não porque está parado, mas porque está sempre e perpetuamente em movimento.

Curiosamente, o erro dos teólogos do processo e o erro de Aristóteles é o mesmo. Afinal, esses não vêem no mundo ação direta de Deus, mas apenas uma atração sutil. Um cristianismo orante não o pode aceitar. Como disse Pascal, Deus concedeu a oração ao homem para lhe emprestar a “dignidade da causalidade”. Se não há causalidade por parte de Deus, não há oração.

Mas somente um Deus impassível pode ser crido — só isso nos diz que podemos continuar a confiar nele. É um ato de fé a anterior a qualquer “falar sobre Deus”. Por isso mesmo, somente um Deus de amor impassível pode ser amado. Se Deus muda, como sabemos se não mudará para pior? Como sabemos se não nos abandonará? “Porque eu, o Senhor, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos.” (Ml. 3:6).

A veracidade da impassibilidade se confunde com sua necessidade. Necessitamos da confiabilidade de Deus, “em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tg. 1:17). Numa bela imagem, a fé do Antigo Testamento chama a Deus de “rocha eterna”  e é nessa firmeza que se torna possível “confia[r] no Senhor perpetuamente” (Is. 26:4). Rocha eterna — A impassibilidade é só uma tradução metafísica do título com que a fé hebréia nomeou seu Deus. Mesmo que sejamos infiéis, Deus permanece fiel, porque não pode mudar (2Tm. 2:13).

Todo amor humano é símbolo do Amor Impassível, aquele que nunca acaba (1Co. 13:8). Isso vale especialmente o maior dos amores humanos: o matrimônio. Assim como Deus é o Deus que “guarda a aliança” (Ne. 9:32), ele espera que sejamos aqueles que guardam a aliança para sempre. A imagem cristã de Deus é a do amante perfeito. Não aquele que atrai para si todas as coisas em eros (erōmenon), não um sedutor cósmico, mas aquele que se lança em benignidade sobre sua criação, abrindo sua mão e fartando os desejos dos viventes (Sl. 145:16). O Amor Impassível é aquele que pode ser crido em todo tempo. Aquele em quem todos podem sempre confiar. Deus é sempre explosivamente furioso, ativamente amente, vivamente glorioso.

G. M. Brasilino

 

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